Esta é a nossa fé [41]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

O «Credo» termina com a definição da meta para a qual caminha a existência humana: a esperança da ressurreição (tema 40) e da vida eterna, «a vida do mundo que há de vir». «O cristão, que une a sua morte à de Jesus, encara a morte como uma chegada até junto d’Ele, como uma entrada na vida eterna» (Catecismo da Igreja Católica, 1020). Aliás, esta não é só a meta da existência humana; é também a meta de toda a Criação. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Apocalipse 21, 1-5a; Catecismo da Igreja Católica, números 1020-1060]

«Vi, então, um novo céu e uma nova terra» — refere o autor do livro Apocalipse. A Bíblia termina com uma grandiosa afirmação de novidade. Numa visão, em linguagem simbólica, João vislumbra a meta: céu e terra são renovados (cf. tema 5: céu e terra simbolizam todas as coisas). Os perigos imprevisíveis, simbolizados pelo mar, desaparecem. Toda a Criação recebe uma dinâmica de mudanças positivas. Vencida a morte, eliminados os sofrimentos e as lágrimas, neutralizadas as forças hostis e negativas, começa uma vida nova em Jesus Cristo: «Eu renovo todas as coisas». Eis o resultado da vitória definitiva de Jesus Cristo (cf. temas 23 a 29). A novidade do Evangelho atinge a plenitude. Estamos perante uma nova Criação, em que tudo volta à situação original, tudo volta a ser vida e comunhão gozosa com Deus. Neste sentido, o texto bíblico destaca também a imagem de uma nova cidade: a «nova Jerusalém» que é sinal da instauração definitiva do Reino de Deus, sinal da presença («morada») de Deus. «No fim dos tempos, o Reino de Deus chegará à sua plenitude. [...] O próprio Universo material será transformado. Deus será, portanto, ‘tudo em todos’ (1Coríntios 28), na vida eterna» (Catecismo da Igreja Católica, 1060).

E a vida do mundo que há de vir. Ao refletirmos sobre a esperança da «vida do mundo que há de vir» ou da «vida eterna», a primeira barreira que temos de ultrapassar é pensar que se trata de uma vida e de um mundo iguais à vida e ao mundo em que nos encontramos agora. Não se trata de fazer perdurar para sempre a vida deste mundo ou algo semelhante. Bento XVI, na Carta Encíclica sobre a esperança cristã — «Spe Salvi», ao falar da vida eterna, explicita: «É uma expressão insuficiente, que cria confusão. Com efeito, ‘eterno’ suscita em nós a ideia do interminável, e isto nos amedronta; ‘vida’, faz-nos pensar na existência por nós conhecida, que amamos e não queremos perder, mas que, frequentemente, nos reserva mais canseiras que satisfações, de tal maneira que se por um lado a desejamos, por outro não a queremos. A única possibilidade que temos é procurar sair, com o pensamento, da temporalidade de que somos prisioneiros e, de alguma forma, conjeturar que a eternidade não seja uma sucessão contínua de dias do calendário, mas algo parecido com o instante repleto de satisfação, onde a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade» (12). Não se trata de um tempo sem fim, mas da ausência de tempo. «A eternidade não é semelhante ao tempo e a verdadeira definição de eternidade não é a duração prolongada, mas a presença» (Jean Guitton, citado por Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 140). Por isso, a expressão mais apropriada será plenitude: «é plenitude de participação na vida do ‘Eterno’» (João Paulo II, Carta Encíclica sobre o valor e a inviolabilidade da vida humana — «Evangelium Vitae» [EV], 37). Há também outra barreira que precisamos de ultrapassar: pensar em espaço, lugar. Ora, a «vida do mundo que há de vir» não é um local superior, não é um local fora do mundo; não é um local, mas uma maneira de ser: «é a própria vida de Deus e simultaneamente a vida dos filhos de Deus» (João Paulo II, EV 38). Esta maneira de ser consiste na presença plena de Deus em nós e de nós em Deus. Por isso, «a vida eterna não é algo apenas futuro; é uma realidade que já começou e que já está em fase de crescimento. Na medida em que nos confiamos a Cristo, na medida em que o seu Espírito já nos guia, já começamos a viver na Jerusalém do Céu» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 147).

Então, «não deixemos que nos roubem a esperança, nem permitamos que esta seja anulada por soluções e propostas imediatas que nos bloqueiam no caminho, que ‘fragmentam’ o tempo transformando-o em espaço. O tempo é sempre superior ao espaço: o espaço cristaliza os processos, ao passo que o tempo projeta para o futuro e impele a caminhar na esperança» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé — «Lumen Fidei», 57).

© Laboratório da fé, 2013

Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé  Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.7.13 | Sem comentários
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