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Lumen Gentium — Constituição Dogmática sobre a Igreja


O segundo capítulo da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG) é dedicado à definição da Igreja como «Povo de Deus», cuja noção básica reside no sacerdócio comum dos fiéis e já não exclusivamente na hierarquia. Nesta nova conceção eclesial destaca-se o aspeto teológico da Igreja no qual, sob a ótica da fé, todos são iguais, porém, com funções diferenciadas; e não só o aspeto jurídico que reconhece apenas o clero como Igreja.
Na eclesiologia, a nova conceção causou uma verdadeira revolução, pois o conceito dominante de Igreja, desde o Concílio de Trento como «sociedade perfeita e hierarquizada», passou para um modelo circular e aberto ao mundo, como Sacramento e instrumento de Deus que se entende na unidade com todo o género humano.
É de fundamental importância lembrar que o conceito de Povo de Deus inicia-se com Abraão que sai de Ur com destino à terra que Deus lhe indicou. E, a partir de Abraão, Deus escolhe Israel como seu povo, instruindo-o gradualmente, manifestando-Se, revelando-Se a Si mesmo e os desígnios da Sua vontade na História, e santificando aquele povo para Si; depois Deus, com Moisés e Josué, conduz o seu povo para a liberdade, para a Terra prometida, e é por causa deste Povo que Ele deixa de castigar Israel quando alguns pecaram. Tudo aconteceu como preparação e prefiguração da Nova e perfeita Aliança que seria selada em Cristo, Seu Filho Jesus, para redimir definitivamente o seu Povo, na plenitude dos tempos, entregando-Se em sacrifício perfeito para a salvação de toda a humanidade (LG 9).
Cristo, ao estabelecer esse novo pacto, formou com os judeus e com os gentios, um povo segundo o Espírito, constituindo assim, o novo Povo de Deus. Os que crêem em Cristo, renascidos no Batismo, constituem «a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo resgatado… considerado como Povo de Deus» (LG 9).
Embora diferentes, essencialmente entre si e não apenas em grau, o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial hierárquico ordenam-se um para o outro, mutuamente, pois ambos participam, cada qual a seu modo, do sacerdócio único de Cristo. Nos Sacramentos e na prática das virtudes, o povo de Deus exercita o sacerdócio comum de várias formas, de acordo com os seus dons e carismas, participando também da missão profética de Cristo, dando testemunho vivo d’Ele, especialmente pela vida de fé e caridade, oferecendo a Deus o sacrifício do louvor, fruto dos lábios que glorificam o Seu nome (LG 9).
«Cristo Senhor, Pontífice tomado de entre os homens, fez do novo povo um reino de sacerdotes para Deus, seu Pai». Pela regeneração e pela unção do Espírito Santo, os batizados consagram-se para ser edifício espiritual e sacerdócio santo, com a incumbência de ser testemunhas de Cristo e levar ao mundo a esperança que possuem na vida eterna (LG 10).
A LG indica que o senso da fé (consenso universal a respeito da fé e dos costumes) é construído pelo conjunto dos fiéis sustentado pelo Espírito Santo, pela palavra de Deus e sob a direção do Magistério. Este mesmo Espírito «distribui individualmente e a cada um, conforme entende, os seus dons» (1Coríntios 12-11) e as suas graças especiais aos fiéis de todas as classes, tornando-os aptos a assumirem os diversos encargos e ofícios úteis à renovação e maior incremento da Igreja. Assim, os ministérios leigos não decorrem da insuficiência de presbíteros, mas sim porque todos os batizados, em razão do sacerdócio comum, são ministros de Deus, responsáveis diretos também pela Igreja e pela evangelização. Não nos esqueçamos de que o termo «Igreja», na sua origem se refere à «assembleia dos escolhidos» e esta é a ideia que a LG retoma da Igreja primitiva (LG 12).
Todos os seres humanos são chamados a participar do novo Povo de Deus, dilatando-o até aos confins do mundo inteiro e em todos os tempos, para cumprir os desígnios de Deus, que decidiu congregar na unidade todos os seus filhos que andavam dispersos. Assim, Povo de Deus é estendido a todos os povos da terra, aos quais o Espírito Santo inspira o princípio da comunhão e da unidade. Por força desta universalidade, cada parte contribui com os seus dons peculiares para as demais e para toda a Igreja, de modo a crescerem pela comunicação mútua e pelo esforço comum em ordem, a fim de alcançarem a plenitude na unidade.
Este novo Povo de Deus não é específico dos fiéis católicos, mas estende-se aos irmãos cristãos não católicos, os quais veneram a Sagrada Escritura como norma de fé e de vida, e manifestam sincero zelo religioso; e estende-se também aos não cristãos que, embora não tenham recebido ainda o Evangelho, estão destinados, a fazer parte do Povo de Deus que se revela a toda humanidade de modos e formas diversas, os quais não nos é lícito questionar, mas sim aceitar e acolher, buscando a unidade na diversidade destas manifestações (LG 14, 15 e 16).
Na América Latina, especialmente na Conferência de Medellin (1968) e depois de Puebla (1979), a LG foi entusiasticamente recebida e não se pouparam esforços para a colocar em prática; empenho que se consolidou depois, nas outras Conferências. Mas é especialmente nas duas primeiras que se observa o acolhimento da conceção eclesiológica de «Igreja Povo de Deus». Ao laicado, de modo especial, dirigem-se as Conferências Latino-americanas, culminando com a Conferência de Aparecida (2007), exortando ao cumprimento da «Missão Continental». Não se pode deixar de citar, no sentido do protagonismo dos leigos, a Exortação Apostólica Pós-Sinodal sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo — «Christifidelis Laici», que nos amplia o horizonte de atuação do laicado.
A LG contribuiu para fortalecer as comunidades eclesiais de base (CEBs) que se reúnem nos mais diversos e distantes lugares, mesmo sem a presença dos presbíteros. Disso exigiu-se a formação dos chamados Ministérios Laicais no interior das comunidades e, especialmente, fora delas. Aos poucos, cresce a consciência de que a presença dos leigos no mundo é a presença da Igreja. Nesta perspectiva, a LG fornece a fundamentação teológica para a Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo — «Gaudium et Spes» (As alegrias e esperanças – sinais da Igreja no mundo), Esta constituição Pastoral não pode ser dissociada da LG.
O caráter missionário da Igreja, que surge da obediência ao mandamento de Cristo: «Ide, pois, ensinai todos os povos» (Marcos 16, 15) estende-se a todo o Povo de Deus; este assume, com Paulo, o múnus decorrente do sacerdócio real comum e do profetismo recebido no Batismo: «Ai de mim se eu não evangelizar!» (1Coríntios 9, 16). Cabe, portanto, ao Povo de Deus – clero, religiosos e leigos – assumir juntos e na Igreja, por força dos seus dons e carismas próprios, a missão de evangelizar e levar aos confins da terra a Boa Nova de Jesus, e construir, no aqui e agora do nosso tempo, o verdadeiro Reino de Paz e de Amor, o Reino dos Céus, o Reino de Deus que Jesus iniciou com a sua Vida, Paixão, Morte e Ressurreição (LG 17).

© Ambiente Virtual de Formação — www.ambientevirtual.org.br —
© Arquidiocese de Campinas, Brasil
© Adaptado por Laboratório da fé, 2013



Questões para reflexão

  • Na tua comunidade existem pessoas que conheceram a Igreja pré-conciliar? Existe alguma diferença entre a Igreja pré-conciliar e a atual Igreja como Povo de Deus?
  • No teu modo de ver e viver em Igreja, o novo conceito «Povo de Deus» provoca alguma coisa de positivo na vida comunitária?
  • O que se pode entender pelo conceito de «novo» Povo de Deus?

Partilha connosco a tua reflexão!


II Concílio do Vaticano, no Laboratório da fé, 2013


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 25.6.13 | Sem comentários
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