Esta é a nossa fé [32]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

A dificuldade em definir o Espírito Santo, que temos vindo a referir (cf. temas 30 e 31), alargou-se à questão da origem do Espírito Santo. Qual é a origem do Espírito Santo? O Pai? O Filho? O Pai e o Filho? A resposta a estas interrogações provocou uma discussão profunda no seio da Igreja; e contribuiu para acentuar a separação entre o Oriente e o Ocidente, dando origem à primeira grande separação entre as igrejas: Igreja Católica e Igreja Ortodoxa [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 15, 26-27; Catecismo da Igreja Católica, números 243-248]

«O Espírito da Verdade, que procede do Pai e que Eu vos hei de enviar da parte do Pai» — é a terceira promessa do Espírito feita por Jesus Cristo aos apóstolos, de acordo com o evangelho segundo João. Esta afirmação está na base do doutrina sobre o Espírito Santo que proclamamos no «Credo»: «e procede do Pai e do Filho».

E procede do Pai. Na linguagem humana — sempre imperfeita para referir o ser, a essência de Deus — Deus Pai é apresentado como a «fonte e a origem de toda a Divindade». Assim se compreende que o «Credo» apresente a relação trinitária de Deus sempre a partir do Pai. Por isso, dizemos que o Filho é «gerado» e «consubstancial ao Pai» (cf. temas 12 e 13); e também dizemos que o Espírito «procede do Pai». Isto significa que o Espírito Santo, tal como o Filho, é da mesma identidade e natureza que o Pai. O Filho e o Espírito Santo não foram criados, mas fazem parte da essência de Deus. E assim se constituiu a revelação trinitária de Deus. Através da Bíblia, esta revelação surge como uma relação de comunhão entre as três Pessoas de Deus: Pai, Filho e Espírito Santo.

E do Filho. «O Espírito Santo procede do Pai enquanto fonte primeira; e, pelo dom eterno do Pai ao Filho, procede do Pai e do Filho em comunhão», afirma o Catecismo da Igreja Católica (número 264) citando Santo Agostinho. A relação entre o Filho e o Espírito Santo deu origem à primeira grande divisão no seio da Igreja. Trata-se de uma questão mais linguística do que teológica, mas historicamente teve consequências muito graves para a unidade da Igreja. Por isso, vamos apresentar resumidamente o essencial. «As culturas, as línguas e as sensibilidades teológicas levaram o Ocidente e o Oriente a exprimirem de maneiras diferentes estas relações entre as Pessoas divinas. Sem entrar em pormenores é possível reter que o Oriente foi mais cuidadoso em manifestar a monarquia do Pai, sendo o único sem origem e sendo fonte de vida trinitária. O Ocidente desenvolveu mais especificamente as relações entre as Pessoas divinas, exprimindo-as em termos de amor partilhado. Um e outro confessando realmente que é o Espírito de Cristo que é dado, e que o Espírito está espalhado porque o Filho participa na glória do Pai» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 138). Na verdade, sempre existiu uma diferença sadia e complementar entre as duas partes da mesma Igreja: a parte ocidental dominada pelo pensamento latino e a parte oriental mais dominada pela cultura grega. Os concílios serviam exatamente para dirimir as questões e estabelecer uma doutrina comum a toda a Igreja. Ora, o «Credo» que resulta do Concílio de Constantinopla (em 381) refere apenas que o Espírito Santo «procede do Pai». Assim se definiu o «símbolo» da fé comum à Igreja que estava no Ocidente e no Oriente. No entanto, a tradição latina da Igreja (Ocidente) foi introduzindo, na proclamação de fé nas celebrações litúrgicas, a expressão «e do Filho»: o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Curiosamente, foram as igrejas situadas na Península Ibérica (Espanha e Portugal) que, durante o século VII, mais promoveram a inserção da expressão «e do Filho» no texto do «Credo», que não seria bem aceite pela parte oriental da Igreja Católica. As posições foram levadas ao extremo: para os orientais, o Espírito procede do Pai pelo Filho; para os ocidentais, o Espírito procede do Pai e do Filho. Devido à importância histórica que assumiu, esta questão ficou conhecida pelo termo latino «Filioque» (em português: «e do Filho»). E será mais um argumento para consumar a rutura que acontece no ano de 1054: a separação entre o Ocidente e o Oriente, dando origem à Igreja Ortodoxa.

Hoje, reconhece-se que a controvérsia tornou-se mais linguística do que teológica, porque o que realmente estava em causa era apenas o significado da palavra «proceder». No entanto, a afirmação que no «Credo niceno-constantinopolitano» se refere à origem do Espírito Santo — «e procede do Pai e do Filho» — contribui para as divergências que separam católicos e ortodoxos.

© Laboratório da fé, 2013

Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé  Credo niceno-constantinopolitano, no Laboratório da fé
  
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 6.6.13 | Sem comentários
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