Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Amo-te, porque eu sou assim
Costumamos entender o amor humano de uma maneira muito utilitária, mesmo nas suas formas mais elevadas, como pode ser o amor conjugal. A dinâmica do amor costuma ser a seguinte: «amo-te, porque tu és assim», ou seja, amo-te, porque há algo em ti que eu gosto, que me atrai, que me completa. Mas a perfeição do amor não está no «amo-te, porque tu és assim», mas no «amo-te, porque eu sou assim». Na revelação que Jesus nos fez de Deus, encontramos esta perfeição do amor.
O Deus cristão é Amor em plenitude e perfeição. Em Jesus Cristo, este Amor que é Deus revelou-se como relação e comunhão intra-trinitária. O Pai ama o Filho, não o ama por causa do que pode obter do Filho, mas pelo que o Pai é. E o Filho ama o Pai, não pelo que pode obter dele, mas pelo que o Filho é. Na relação entre o Pai e o Filho não seria concebível que um dissesse ao outro: «amo-te, porque tu és assim». Este tipo de amor, por muito sublime que seja, é um amor utilitário, necessitado. O Pai e o Filho amam-se mutuamente, mas amam-se pelo que cada um é em si mesmo. Cada um é «relação» de amor.
Deus ama os seres humanos, mas não os ama pelo que os humanos são. Isso seria amá-los para sua própria satisfação. Não. Deus ama «porque Deus é assim», um amante que não pode senão amar, um Deus que tem a relação inscrita nas entranhas do seu ser. Ama-me como sou, mas não me ama pelo que eu sou. A razão do seu amor está nele próprio. Deus ama-me, porque é Deus. Deus é iniciativa de amor para com a sua Criação, porque é primeiramente iniciativa de amor em si mesmo entre vários. Se Deus nos criou à sua imagem, então temos de dizer que nos criou como iniciativa de amor.
No «eu amo-te, porque tu és assim» há um procura de interesses ou de complementaridade psicológica. Além disso, este amor é precário. Não dura. No melhor dos casos, dura até à morte do outro. Assim se apresenta, normalmente, o amor entre os esposos: ser-te-ei fiel até que a morte nos separe. Contudo, a experiência do amor pode ser tão profunda até amar a existência do outro para além da morte. Isto leva-nos à essência verdadeira do amor humano, feito à imagem do Amor que é Deus: amo-te, amo-te a ti, porque eu sou assim. E por isso ser-te-ei fiel para além da morte. Só assim é que o amor aponta para a eternidade.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 9.6.13 | Sem comentários
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