Quinta-feira da sétima semana


Evangelho segundo Marcos 9, 41-50

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa. Se alguém escandalizar algum destes pequeninos que crêem em Mim, melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós movidas por um jumento e o lançassem ao mar. Se a tua mão é para ti ocasião de pecado, corta-a; porque é melhor entrar mutilado na vida do que ter as duas mãos e ir para a Geena, para esse fogo que não se apaga. E se o teu pé é para ti ocasião de pecado, corta-o; porque é melhor entrar coxo na vida do que ter os dois pés e ser lançado na Geena. E se um dos teus olhos é para ti ocasião de pecado, deita-o fora; porque é melhor entrar no reino de Deus só com um dos olhos do que ter os dois olhos e ser lançado na Geena, onde o verme não morre e o fogo não se apaga». Na verdade, todos serão salgados com fogo. O sal é coisa boa; mas se ele perder o sabor, com que haveis de temperá-lo? Tende sal em vós mesmos e vivei em paz uns com os outros».

Vivei em paz uns com os outros

Jesus Cristo começa e acaba a enaltecer as atitudes positivas: dar de beber; «vivei em paz uns com os outros». Mas, pelo meio, apresenta uma linguagem forte, onde domina a expressão «ser lançado na Geena». O que é que Jesus Cristo quer dizer com esta expressão? No próprio texto, parece que Jesus Cristo se refere à «Geena» como sendo um lugar onde o «fogo não se apaga». Muitos usam-na para defender a existência do inferno, isto é, a condenação eterna. 

O inferno existe? Em rigor, não existe uma definição dogmática sobre o inferno. No entanto, os Papas João Paulo II* e Bento XVI** referiram-se à possibilidade real da existência do inferno. No entanto, está bem claro que a Igreja nunca disse — nem poderá fazê-lo — que haja alguém em situação de condenação eterna. Quanto à imagem do «fogo», usada nos textos bíblicos, pode ajudar-nos a perceber o encontro purificador no encontro definitivo com Jesus Cristo. «Alguns teólogos recentes são de parecer que o fogo que simultaneamente queima e salva é o próprio Cristo, o Juiz e Salvador» (Bento XVI).
No final do texto evangélico, Jesus Cristo deixa um apelo: «Vivei em paz uns com os outros». Viver em paz é uma característica de quem assume uma vida cristã saudável, ressuscitada. A paz é um dom de Jesus Cristo ressuscitado aos seus discípulos, um dom que evocamos e invocamos em cada celebração da Eucaristia. Na verdade, uma vida diária «com Espírito» procura ter sempre presente estas palavras: «vivei em paz uns com os outros».

* João Paulo II, a 28 de julho de 1999, disse: «Deus é Pai infinitamente bom e misericordioso. Mas o ser humano, chamado a responder-Lhe na liberdade, pode infelizmente optar por rejeitar de maneira definitiva o Seu amor e o Seu perdão, subtraindo-se assim, para sempre, à alegre comunhão com Ele. Precisamente esta trágica situação é apontada pela doutrina cristã, quando fala de perdição ou inferno. [...] As imagens com que a Sagrada Escritura nos apresenta o inferno devem ser interpretadas de maneira correta. Elas indicam a completa frustração e vazio de uma vida sem Deus. O inferno está a indicar, mais do que um lugar, a situação em que se vai encontrar quem de maneira livre e definitiva se afasta de Deus, fonte de vida e de alegria. Assim resume os dados da fé sobre este tema o Catecismo da Igreja Católica: 'Morrer em pecado mortal sem arrependimento e sem dar acolhimento ao amor misericordioso de Deus é a mesma coisa que morrer separado d'Ele para sempre, por livre escolha própria. E é este estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa pela palavra "Inferno" (número 1033)'. A 'perdição' não deve, por isso, ser atribuída à iniciativa de Deus, pois no Seu amor misericordioso Ele não pode querer senão a salvação dos seres por Ele criados».

** Bento XVI, na Carta Encíclica sobre a esperança cristã  – «Spe Salvi», afirma: «Com a morte, a opção de vida feita pelo homem torna-se definitiva; esta sua vida está diante do Juiz. A sua opção, que tomou forma ao longo de toda a vida, pode ter caracteres diversos. Pode haver pessoas que destruíram totalmente em si próprias o desejo da verdade e a disponibilidade para o amor; pessoas nas quais tudo se tornou mentira; pessoas que viveram para o ódio e espezinharam o amor em si mesmas. Trata-se de uma perspetiva terrível, mas algumas figuras da nossa mesma história deixam entrever, de forma assustadora, perfis deste género. Em tais indivíduos, não haveria nada de remediável e a destruição do bem seria irrevogável: é já isto que se indica com a palavra inferno».

© Laboratório da fé, 2013

Pentecostes e Sétima semana, no Laboratório da fé, 2013

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 23.5.13 | Sem comentários
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