Entrevista ao Cónego João Aguiar Campos

Igreja Viva, 9 de maio de 2013 


A Igreja detém ainda muitos órgãos de comunicação social em Portugal. Como olha para o futuro da imprensa de inspiração cristã? Eu acho que a imprensa de inspiração cristã tem futuro, porque é uma necessidade da imprensa na sua generalidade. O nosso tempo é um tempo mediático. O que não se vê, o que não se ouve, o que não se lê, não existe. Nas conversas diárias as pessoas dizem “vi hoje na televisão...” ou “li hoje no jornal...”. Não podemos consentir, nós os crentes, que por omissão pecaminosa, Deus fique ausente do quotidiano, no meio de uma sociedade em evidente crise comunicacional. Se deixarmos de comunicar, deixamos de ser Igreja, porque a Igreja é isso mesmo, é comunicação. No meio da ditadura do relativismo, a comunicação social da Igreja deve manter viva a busca de sentido e garantir espaço para a nossa sede de infinito. Para responder a esta necessidade, temos naturalmente de nos organizar. Precisamos urgentemente de uma pastoral da comunicação a sério, porque sem ela podemos ter abundância de meios, mas não teremos eficácia e eficiência no uso desses meios. A necessidade desta pastoral, presente em todos os setores da pastoral, é hoje, mais do que nunca, sublinhada. O trabalho dos órgãos de comunicação social não é uma atividade complementar, mas tem uma implicação em todos os aspetos da missão da Igreja. A comunicação deve fazer parte integrante de todos os planos pastorais, dada a necessidade do seu contributo para qualquer apostolado. Esta é, repito, uma urgência da Igreja portuguesa. Poderíamos ler e reler um diretório sobre comunicação social da Igreja, publicado pela conferência episcopal italiana. Até porque os brasileiros, que estão à nossa frente neste domínio, não tiveram vergonha de recorrer a um documento de bispos italianos.

Foi muitos anos director do mais importante diário regional do Minho e, provavelmente, um dos maiores do país na sua categoria. Que balanço faz desse período? Faço um balanço, pessoalmente, positivo. Para mim foi muito gratificante trabalhar num jornal da Arquidiocese, cristão e de publicação diária, mas também trabalhar com a equipa e com as pessoas que compunham a empresa, desde a administração aos jornalistas. Naturalmente, também foi um tempo de transformações na própria empresa. O jornal, ao qual o monsenhor Silva Araújo tinha dado grande impulso, entrou também numa outra etapa. Tinha ganho a cor e uma nova apetência do ponto de vista do consumidor. Fica sempre com um sabor amargo quanto às possibilidades de expansão do jornal e quanto à necessidade de dotar o jornal para ser rápido e profundo a pensar. O que é que eu quero dizer com isto? Estamos a atravessar uma fase em que a informação é debitada, mas é pouco lida ou comentada. Hoje, a informação quase esbarra connosco no telemóvel, nos ecrãs das ruas, nos nossos portáteis, mas não chega até nós com um olhar mais profundo. A informação aparece como acontecimento, mas não chega até nós descascada. É muito superficial. Nesse aspeto, a Igreja deve ter os seus órgãos de comunicação dotados de gente que saiba fazer esta análise mais profunda dos acontecimentos. 

Atualmente lidera um dos principais grupos de informação em Portugal, o grupo Renascença. Como se sente nesse papel? Em todos os lugares por onde passo tento sentir-me padre e um padre chamado a comunicar. Neste caso particular, não através das formas tradicionais, como as pregações ou homilias, mas a orientar a comunicação de uma grande praça. Sinto que também a Renascença está a encarar a crise com valentia. Estamos a diversificar as nossas formas de estar. Hoje a rádio não é apenas rádio. Para além dos quatro canais que o grupo possui – a Renascença, a RFM, a Mega Hits e a Rádio Sim – temos mais três rádios simplesmente on-lin, um jornal digital semanal que é distribuído para cerca de 75 mil emails, e ainda uma web TV ligada à RFM e à informação da Renascença. Estamos realmente naquelas plataformas que o consumidor de informação exige. Neste ambiente e nesta civilização digital, o consumidor tudo agora e na plataforma que está mais à mão. Quer ver o acontecimento e reagir e comentar o mesmo acontecimento. A Renascença é uma rádio a evoluir e encara com otimismo o futuro.

Como vê o actual panorama da comunicação social? O panorama da comunicação social vejo-o com preocupação. Os meios de comunicação social vivem os efeitos de uma convulsão económico-financeiras, que tem implicações diretas no investimento publicitário e comercial. O mercado publicitário, nos últimos anos, perdeu 300 milhões de euros. Trata-se de um setor em acentuada queda. Esta crise apanhou os meios de comunicação social num processo de transformação e adaptação ao universo digital. À falta de dinheiro, soma-se a urgência de transformações tecnológicas, o que implica um investimento num modo de fazer as coisas que ainda não traz ingressos. Toda a gente está na internet, mas a internet ainda não cobre todo o investimento que nela se faz, cujos números ainda não são negócio. A isto acrescenta-se a exigência da diferenciação através dos conteúdos. Para isso, é necessário investimento. Como hoje falta o dinheiro, assistimos a uma progressiva redução de qualidade de conteúdos. Basta olhar para as televisões. Juntam-se meia dúzia de pessoas, que se dizem famosas, ou então faz-se um palco ao ar livre e faz-se disto conteúdo. São formas baratas de fazer as coisas. É uma dieta que quando já não pode atingir as gorduras, começa a atingir os músculos e o cérebro. Não há dinheiro para fazer jornalismo de investigação. A juntar a estes fatores, no que toca ao jornalismo de inspiração católica, temos o problema do rejuvenescimento dos públicos. Hoje estamos muito envelhecidos. A últimas estatística que consultei indica que os leitores da imprensa de inspiração cristã anda na ordem dos 65 anos. Temos que recuperar os mais jovens. 

O que deve diferenciar a missão de um órgão de comunicação social católico em relação aos demais? É o tempo e espaço dedicado à informação religiosa? Penso que não deveremos somar mais páginas ou conteúdos religiosos aos já existentes. Ao fazermos isso, estamos a pescar dentro de um aquário. Há que ter, sim, uma capacidade de análise, seja na seleção, seja no tratamento da informação. Devemos encarar todos os desafios e problemas dos homens do nosso tempo e lê-los com olhos crentes. Não estou a menosprezar a informação religiosa. A informação religiosa é uma informação jornalística que deve ser tratada como outra informação qualquer. Não temos que estar sempre a aspergir água benta. É mais importante que nunca o olhar cristão sobre aquilo que se passa, um olhar de esperança quando estamos a atravessar um momento de particular crise. 

O Papa pede-nos, este ano, para reflectirmos na importância crescente das redes sociais na comunicação em sociedade. Pensa que a Igreja já está suficientemente representada nestes meios? A Igreja tem feito um grande esforço - e estou a falar inclusive da Igreja de Braga, que já marca aí uma presença interessante - para estar presente nesta praça habitada e partilhada por milhões de pessoas, com as suas culturas e interesses. Não se fala essencialmente de instrumentos digitais, mas de um meio que corresponde a uma grande praça. Este mundo digital é, de facto, um novo continente. O Papa diz-nos que, para que este lugar seja ecologicamente habitável, os que aí estão devem comportar-se responsavelmente. Devem ser autênticos. Não apenas se comunicam ideias, mas há a própria pessoa a comunicar-se. Nesta rede não há apenas troca de informação, mas da própria autenticidade. Por isso é importante não calar a própria diversidade. É um desafio para os crentes partilhar na rede, testemunhar na rede a mensagem de Cristo e os valores da pessoa humana. A verdade é, em si mesma, discreta e deve fazer-se ouvir no meio de muitos ruídos e de vozes que falam bem mais alto. É uma linguagem de uma mensagem testemunhada. A partir desta presença dos cristãos, os outros frequentadores da praça podem sentir-se atraídos pelo contacto pessoal com o próprio Jesus Cristo. Do digital podemos chegar ao real. Mesmo que não o façam, já sofreram um impacto. O que não podemos é perder por falta de comparência. Teremos que dar contas a Nosso Senhor se não usarmos os meios que temos disponíveis. O Papa Bento XVI, que viveu neste tempo de grandes transformações, apelou a nós, padres, para utilizarmos mais este meio digital e que fossemos apóstolos destes meios. 

O que destacaria da Mensagem de Bento XVI para o 47.º Dia da Comunicação Social? Eu penso que tem cada vez menos medo. Acho é que a Igreja continua, felizmente, prudente. Não basta pensar que ao utilizar uma nova tecnologia ela vá ter os efeitos positivos que em si mesma comporta. Por exemplo, a Igreja ao entrar no mundo digital, não pode perder de vista o conteúdo e a dificuldade de plasmar este conteúdo num ambiente muito virtual e emotiva. Penso que, sendo prudentes, não podemos estar ausentes. Sendo modernos, não podemos ser tão apaixonados pela tecnologia que abandonemos os meios mais tradicionais, como é a catequese, a imprensa ou o contacto pessoal com os crentes. Temos que estar aí, mas estar aí com conteúdo e não por moda.

É um homem da Arquidiocese de Braga. No seu entender, agora mais externo, a nossa diocese tem futuro? Naturalmente com esperança. A Arquidiocese de Braga sofreu, como a maior parte das dioceses, os problemas da crise vocacional. Apesar disso, tem conseguido progredir positivamente neste aspeto, bem como noutros aspetos da pastoral. É uma diocese que aposta num laicado bem formado e ativo, noemadamente aproveitando os recursos humanos formados na Universidade Católica. Ao nível do episcopado temos tido bispos dinâmicos e suficientemente jovens, com uma organização cuidada e pastoralmente mais presente e com o aproveitamento de todas as soluções. Penso que uma vez ou outra pode não se ver claro, mas tanto o clero mais jovem como o clero mais idoso tem capacidade e oportunidade para construir a Igreja. Gostava muito que uma diocese, onde estão instalados santuários tão importantes, tivesse uma pastoral dos santuários mais aproveitada, não apenas do ponto de vista turístico, mas também na purificação e formação da piedade popular. É preciso ainda um laicado que não seja encarado como um remendo, mas que seja ativo e cumpra a sua própria vocação. Fizemos há anos um sínodo, e penso que as suas dinâmicas foram sendo suficientemente aproveitadas. A Arquidiocese de Braga está a fazer caminho. Destaco ainda o bom aproveitamento que a Igreja de Braga faz dos seus espaços e infra-estruturas, bem como da iniciativa de muitos dos seus departamentos pastorais. 

Durante a Semana das Vocações, os Seminários Arquidiocesanos de Braga levaram a palco a peça teatral “As peripécias de um aldeão em Lisboa”. Por isso, pergunto: é fácil um “homem do Gerês” viver na capital lisboeta? Não é. Eu não posso falar pelos outros homens do Gerês. Para mim, que sou alguém muito ligado à família e aos amigos, foi mais difícil. Cheguei a Lisboa e senti-me desenraizado. A minha vida aqui em Lisboa começa às 05h30 da manhã. Faço as minhas orações e rapidamente consulto os sites de informação, porque o mundo não parou enquanto eu dormia. Apanho o eléctrico pelas 07h00 e sigo para a igreja da Encarnação onde rezo e celebro a eucaristia. Tomo o pequeno-almoço já na rádio. Durante o dia não me pertenço a mim mesmo. Tenho que assinar contratos, ouvir pessoas, escutar políticos na ponta da linha, entre outros afazeres relacionados com as responsabilidades que detenho. Por volta das 20h00 regresso a casa, contacto com a família ou com um ou outro amigo, e descanso. Não é fácil, mas também não quero que pensem que sou um mártir. Assumi uma missão, mas como qualquer missão tem os seus espinhos. Eu gosto da comunicação. Também tenho agora a responsabilidade do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais, ao qual dedico uma tarde por semana. 

Entre o clero de Braga, o Cón. João Aguiar é conhecido pelo seu lado extremamente humorístico. A par de uns teólogos contemporâneos, corrobora da teoria que o humor pode ser uma via de diálogo com Deus? O humor inteligente e delicado é a tradução da alegria cristã nas diversas circunstâncias. Deus é alegria. Nós não podemos ser tão sérios, que sejamos simplesmente sisudos, mas também não podemos ser tão brincalhões, que nos tornemos banais. O humor é esta grande capacidade de dizer as coisas sérias de uma forma acessível e, ao mesmo tempo, assertiva. Nosso Senhor também não usou a linguagem rabínica do seu tempo, mas utilizou a linguagem das metáforas e das histórias do quotidiano. Penso que uma Igreja sisuda é uma Igreja pouco crente. 

Como é que está a viver este Ano da Fé? Estou a vivê-lo com o entusiasmo de quem diariamente vai meditando no credo. Por exemplo, aqui em Lisboa foi lançada uma iniciativa de recitar o credo nas suas duas ou três fórmulas. Estou a vivê-lo como um desafio para o aprofundamento da minha pertença, fazendo com que Deus esteja mais presente na minha vida. A fé tem que ser uma fé fundamentada. Não se trata de um puro sentimento. Depois, é uma relação com uma pessoa. Por isso mesmo, é importante que ao olhar para mim, os outros possam ver também Jesus Cristo. Testemunhando alegria, disponibilidade e um certo entusiasmo, independente daquilo que nos possa acontecer, penso que estamos a ser testemunho do próprio Cristo. 

Discurso Direto: 
Literatura: Diários Miguel Torga 
Música: Luís Represas 
Cinema: Música no Coração 
Local: Jerusalém 
Gastronomia: Arroz de feijão com paio e salpicão

© Departamento Arquidiocesano de Comunicação Social, 2013 

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Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 13.5.13 | Sem comentários
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