Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Entende-se por casamento misto aquele que é contraído por pessoas de diferentes confissões religiosas (uma católica e outra protestante, por exemplo) ou de religião diferente (um católico e uma muçulmana, por exemplo). Este tipo de casamentos, sobretudo os contraídos entre pessoas de confissão cristã diferente, não deveriam colocar grande problema. Dá-se o caso, em muitos deles, sobretudo quando são bons cristãos, que um cônjuge acompanhe o outro aos ofícios da sua Igreja. Mas hoje é cada vez mais frequente um tipo de casamento «misto» entre um cônjuge religioso e praticante ou, pelo menos, um cônjuge que antes do casamento vivia a sua fé sem qualquer conflito pessoal e outro cônjuge ateu e, inclusive, anticatólico ou anticlerical. Em alguns casos acontece que a parte católica, sobretudo quando está muito convicta da sua fé e a vive com firmeza, arrasta a outra parte para a fé ou, pelo menos, a respeitá-la. Mas o mais frequente é que seja a parte não católica a obrigar ou a forçar a outra parte a deixar de praticar.
Conto dois casos. O de um casal, que vive em união civil, porque um deles não é religioso. Tiveram um filho. A parte católica quer batizá-lo. Depois de algumas tensões, a outra parte consente. Segundo caso: outro casal, que vive em união civil (já que um não só não acredita no sacramento, mas recusa-o) tiveram um filho. E embora a parte católica o queira batizar, a outra parte opõe-se. Para o bem da paz e do amor, não há batismo. Nestes casos não servem as receitas gerais e apriorísticas, porque casa caso é diferente. O casamento está fundado no amor, não na fé, embora a fé seja um componente que marca totalmente um pessoa. Por isso, uma pessoa crente, convicta, que coloca Deus acima de tudo, pode dizer tranquilamente a outra pessoa por quem se enamorou: Deus está primeiro e se Deus não entra na nossa relação, eu continuar a gostar muito de ti, mas a minha relação contigo tem um limite.
O que acontece é que a maioria dos crentes não vive a sua fé com esta convicção e intensidade. E, por isso, o enamoramento faz com que seja a sua fé a sofrer as consequências. Não ainda responder que não há autêntico amor. Pode-se amar de verdade aquele que não partilha a fé. Deus ama-os. Porque é que eu não o posso amar? Antes, estas situações colocavam-se de outra maneira, mantendo as aparências. Hoje, a fé perdeu apoio e força social. Daqui derivam alguns problemas. Como cristãos, como Igreja, temos de nos perguntar como acompanhar estas pessoas sinceramente enamoradas por outra pessoa não religiosa. Haverá que praticar uma pedagogia feita de paciência e proximidade, tanto para a parte crente como para a não crente.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.5.13 | Sem comentários
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