Esta é a nossa fé [27]


Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

Há uma mudança nos tempos verbais! Até agora o conteúdo do «Credo» situou-se no passado e no presente da História da Salvação. Agora, aponta para o tempo futuro: uma realidade marcada pela vinda gloriosa de Jesus Cristo. [Para ajudar a compreender melhor, ler: João 14, 1-6; Catecismo da Igreja Católica, números 668-677]

«Virei novamente e hei de levar-vos para junto de mim» — diz Jesus Cristo aos discípulos, no contexto do (longo) discurso de despedida relatado no evangelho segundo João. À proximidade com os seus discípulos, lavando-lhes os pés e insistindo no mandamento do amor, mistura-se a tensão do anúncio das negações de Pedro e da traição de Judas (cf. João 13). Agora, Jesus Cristo percebe que o rosto e o coração dos discípulos estão perturbados. Por isso, anima-os a ter fé, a ter confiança nele e no Pai. Tranquiliza os seus amigos. Apesar de todas as contrariedades e situações difíceis, explica-lhes que a esperança humana será levada à plenitude. Porque, no coração de Deus, há lugar para todos os seus filhos. A exortação à confiança está também associada à «partida» de Jesus Cristo para a «casa» do Pai onde preparará um «lugar» para os seus amigos. Mas não devem ficar tristes, pois não se trata de um abandono definitivo; ele voltará: «virei novamente e hei de levar-vos para junto de mim». Os discípulos não compreendem. Em nome de todos, Tomé assume essa incompreensão. Ainda não perceberam qual é a meta nem o caminho para lá chegar: «Não sabemos para onde vais, como podemos nós saber o caminho?». A resposta está no próprio Jesus Cristo. Ele é o caminho. «Jesus esclarece os discípulos de que a sua partida é abrir caminho para a casa do Pai, a meta final para todos» (Bíblia Sagrada, Nota ao texto de João 14, 2-3, Difusora Bíblica, 1758).

De novo há de vir em sua glória. «A fé no regresso de Cristo é o segundo pilar da profissão de fé cristã. Ele, que se fez carne e agora permanece Homem para sempre, que para sempre inaugurou em Deus a esfera do ser humano, chama todo o mundo a entrar nos braços abertos de Deus» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Parte II — Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição, Princípia Editora, Cascais 2011, 232). As primeiras comunidades cristãs sempre assumiram esta esperança pela vinda gloriosa de Jesus Cristo, como o comprova, entre outros, o final do livro do Apocalipse (que também encerra a Bíblia): «‘Eis que Eu venho em breve. Feliz o que puser em prática as palavras da profecia deste livro. [...] Sim. Virei brevemente’. — Ámen! Vem, Senhor Jesus!» (Apocalipse 22, 7.20). Este texto reflete a expressão aramaica «Marana thá» («Vinde, Senhor») — ou «Maran atha» («O Senhor veio») — usada pelos (primeiros) cristãos. Conforme escreve Bento XVI, «sabemos, pela ‘Didaché’ (cerca do ano 100), que este brado fazia parte das orações litúrgicas da Celebração Eucarística dos primeiros cristãos, aparecendo aqui concretamente também a unidade dos dois modos de leitura: os cristãos invocam a vinda definitiva de Jesus e ao mesmo tempo veem, com alegria e gratidão, que Ele antecipa já agora a sua vinda, dá entrada já agora no nosso meio» (Bento XVI, «Jesus de Nazaré. Parte II...», 233). Na verdade, esta esperança pela vinda de Jesus Cristo ainda hoje se mantém no ritual da Eucaristia, quando após o Pai nosso o presidente reza: «enquanto esperamos a vinda gloriosa de Jesus Cristo nosso Salvador». E, antes, há uma aclamação em que a assembleia proclama: «Vinde, Senhor Jesus!» ou «esperando a vossa vinda gloriosa». Ao professarmos a nossa fé na vinda de Jesus Cristo manifestamos a nossa convicção de que a história tem uma meta, um sentido que se revelará pleno, no final dos tempos. Esta dimensão da esperança cristã está bem patente no tempo litúrgico do Advento (período que antecede o Natal). Nele, celebramos a preparação para a vinda histórica de Jesus Cristo e a esperança na vinda no final dos tempos, quando entrarmos definitivamente na vida em Deus. Mas não só: há uma outra vinda. «O tempo do Advento é celebrar e abrir-se à vinda constante de Deus, de Jesus, às nossas vidas e à vida da humanidade. Porque Deus vem agora» (Josep Ligadas, «Advento: o Senhor vem», Paulinas, Prior Velho 2003, 10). Na verdade, é preciso ter claro que o facto de nos referirmos a uma nova vinda não significa que Jesus Cristo se encontra ausente do tempo presente. O próprio Jesus Cristo prometeu estar sempre connosco (cf. Mateus 28, 20).

A esperança pela vinda gloriosa de Cristo provoca a alegria de um dia entrarmos na plenitude da vida em Deus. Mas é também um apelo à nossa responsabilidade: Jesus virá «para julgar».

© Laboratório da fé, 2013


  

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 2.5.13 | Sem comentários
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