Mês de maio, Mês de Maria


O papa João Paulo II, no dia 25 de março de 1981, dedicou uma Audiência Geral ao tema da Anunciação — «A Anunciação do Senhor mistério fundamental da Encarnação». Entre outras, o Papa faz referência ao número 56 do oitavo capítulo (dedicado a Maria) da Constituição Dogmática sobre a Igreja — «Lumen Gentium» (LG), do II Concílio do VaticanoNo texto que se segue, João Paulo II começa por recordar a importância que desde cedo os primeiros cristãos colocaram no acontecimento da «Anunciação»; depois, comenta com detalhe o episódio narrado pelo evangelista Lucas. E documenta a resposta de Maria como uma resposta da fé, que serve de exemplo para a nossa «resposta» ao chamamento divino: «cada um de nós, segundo o convite do Concílio, deve estar pronto a responder assim, como Ela, na fé e na obediência, para cooperar, cada um na própria esfera de responsabilidade, na edificação do Reino de Deus».

1. Eis que venho para fazer, ó Deus, a Tua vontade (cf. Salmo 39, 8 s.; Hebreus 10, 7).
Eis aqui a escrava do Senhor (Lucas 1, 38).
São as palavras do Verbo que entra no mundo, e as de Maria que disso recebe o anúncio. Com estas palavras vos saúdo, caríssimos irmãos e irmãs, neste dia soleníssimo dedicado pela Liturgia à Anunciação do Senhor. O coração do crente bate de comoção e de amor com o pensamento do instante inefável, em que o Verbo se tornou um de nós: «et Verbum caro factum est». Desde os primeiros séculos voltou-se o coração da Igreja, com toda a devoção, para o facto que hoje recordamos; recordo as mais antigas fórmulas do Credo, que remontam pelo menos ao século II, solenemente confirmadas pelos Concílios, de Niceia de 325, e de Constantinopla de 381; recordo o afresco das Catacumbas de Priscila, do século II, primeiro testemunho comovedor daquele tributo, que a arte cristã dedicou sem descanso à Anunciação do Senhor, com as páginas mais brilhantes da sua história; recordo a grande basílica, construída no século IV em Nazaré por iniciativa da imperatriz Santa Helena. Também a solenidade de hoje é muito antiga. Embora as suas origens não estejam determinadas com certeza cronológica pelos estudiosos, ela, já no fim do século VII (com inícios certamente anteriores), tinha sido definitivamente fixada em 25 de Março. Na verdade antigamente julgava-se que neste dia se tinham realizado a criação do mundo e a morte do Redentor: de maneira que a data da festa da Anunciação contribuiu para levar a ser fixada a do Natal (cf. F. Cabrol, Annonciation/Fête de l'/, em DACL, I, 2, Paris 1924, col. 2247). A solenidade hodierna tem por isso grande significado quer mariano, quer cristológico.
2. Maria dá o seu consentimento ao Anjo anunciador. A página de Lucas, mesmo na sua frugal concisão, é riquíssima de conteúdos bíblicos antico-testamentários e da inaudita novidade da revelação cristã: desta é protagonista uma mulher, a Mulher por excelência (cf. João 2, 4; 19, 26), escolhida desde toda a eternidade para ser a primeira indispensável colaboradora do plano divino de salvação. É a «almah» profetizada por Isaías (7, 14), a donzela de estirpe real a corresponder ao nome de Miriam, de Maria de Nazaré, humílimo e oculto povoado da Galileia (cf. João 1, 46); a autêntica «novitas» cristã — que elevou a mulher à altíssima e incomparável dignidade, inconcebível para a mentalidade hebraica do tempo como para a civilização greco-romana — começa com este anúncio dirigido a Maria por Gabriel, em nome do próprio Deus. É saudada com palavras tão altas que a perturbam: «Kaire, Ave, alegra-te»! A alegria messiânica ressoa pela primeira vez na terra. «Kekaritoméne, gratia plena, cheia de graça»! A Imaculada está aqui esculpida na sua plenitude misteriosa de eleição divina, de predestinação eterna, de clareza luminosa. «Dominus tecum, o Senhor está contigo»! Deus está com Maria, membro eleito da família humana para ser a mãe do Emanuel, d'Aquele que é «Deus connosco»: Deus estará doravante, sempre, sem arrependimentos e sem retratações, ao lado da humanidade, feito um com ela para a salvar e lhe dar o Seu Filho, o Redentor: e Maria é a garantia viva, concreta, desta presença salvífica de Deus.
3. Do colóquio entre a Criatura eleita e o Anjo de Deus continuam a derivar para nós outras Verdades fundamentais: «Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e chamar-se-á Filho do Altíssimo, o Senhor Deus dar-lhe-á o trono do Seu pai, David... O Espírito Santo virá sobre ti e a forca do Altíssimo estenderá sobre ti a Sua sombra. Por isso mesmo é que o Santo, que vai nascer, se há-de chamar Filho de Deus» (Lucas 1, 31 s., 35). Vem Aquele que, originário da linhagem de Adão, entra nas genealogias de Abraão e de David (cf. Mateus 1, 1-17; Lucas 3, 23-38): Está na linha das promessas divinas, mas vem ao mundo sem necessitar da trajectória da paternidade humana, melhor, ultrapassa-a na linha da fé imaculada. Toda a Trindade está empenhada nesta obra, como o Anjo anuncia: Jesus, o Salvador, é o «Filho do Altíssimo», o «Filho de Deus»; está presente o Pai a estender a Sua sombra sobre Maria, está presente o Espírito Santo a vir sobre Ela para lhe fecundar o seio intacto com o Seu poder. Como subtilmente comentou Santo Ambrósio, na exposição sobre esta passagem do Evangelho de Lucas, ouviu-se naquele dia pela primeira vez a revelação do Espírito Santo, e foi logo acreditada: «et auditur et creditur» (Exp. Ev. sec. Lucam, II, 15; ed. M. Adriaen, CCL, XIV, Turnholti 1957, p. 38).
O Anjo pede o consentimento de Maria para a entrada do Verbo no mundo. A expectativa dos séculos passados está concentrada neste ponto; dele depende a salvação do homem. São Bernardo, ao comentar a Anunciação, exprime de maneira estupenda este momento único, quando diz, dirigindo-se à Senhora: «Toda a gente espera, prostrada aos teus pés; não sem razão, porque da tua boca depende a consolação dos aflitos, a redenção dos prisioneiros, a libertação dos condenados, a salvação, por fim, de todos os filhos de Adão, a tua estirpe inteira. Apressa-te, Virgem, em responder» (In laudibus Virginis Matris Homilia IV, 8; emSermones, I, edd. J. Leclerq et H. Rochais, S. Bernardi Opera Omnia, IV, Romae 1966, pp. 53 s.).
E o consentimento de Maria é consentimento de fé. Encontra-se na linha da fé. Justamente, portanto, o II Concílio do Vaticano, ao reflectir sobre Maria como protótipo e modelo da Igreja, propôs um exemplo da sua fé activa precisamente no momento do «Fiat» que pronunciou: «Maria não foi utilizada por Deus como instrumento meramente passivo, mas... cooperou livremente, pela sua fé e obediência, na salvação dos homens» (Lumen Gentium, 56).
A seguirmos os mesmos passos da fé activa de Maria convida-nos, por isso, a solenidade de hoje: fé generosa, que se abre à Palavra de Deus, que acolhe a vontade de Deus, qualquer que seja e onde quer que se manifeste; fé forte, que supera todas as dificuldades, as incompreensões e as crises; fé operosa, alimentada como viva chama de amor, que deseja colaborar fortemente com os desígnios de Deus sobre nós. «Eis aqui a escrava do Senhor»: cada um de nós, segundo o convite do Concílio, deve estar pronto a responder assim, como Ela, na fé e na obediência, para cooperar, cada um na própria esfera de responsabilidade, na edificação do Reino de Deus.
4. A resposta de Maria foi o eco perfeito da resposta do Verbo ao Pai. O Eis-me aqui por Ela pronunciado é possível na medida em que o precedeu e sustentou o Eis-me aqui do Filho de Deus que, no momento do consentimento de Maria, se torna o Filho do Homem. Hoje celebramos o mistério fundamental da Encarnação do Verbo. A Carta aos Hebreus faz-nos, por assim dizer, penetrar nos abismos insondáveis deste despojamento do Verbo, deste seu humilhar-se, por amor dos homens, até à morte da cruz: «Ao entrar no mundo Cristo diz: 'Não quiseste sacrifício nem oblação, mas preparaste-Me um corpo. Os holocaustos e sacrifícios pelo pecado não Te agradaram. Então Eu disse: Eis que venho — como está escrito de Mim no livro — para fazer, ó Deus, a Tua vontade'» (Hebreus 10, 5 ss.).
Preparaste-Me um corpo: a hodierna celebração leva-nos, sem mais, à data do Natal, dentro de nove meses; mas ela, com o pensamento misticamente profundo que, segundo disse, foi bem captado pelos nossos irmãos e irmãs da Igreja dos primeiros séculos, conduz-nos sobretudo à próxima Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. O facto de a Anunciação do Senhor cair dentro e a propósito do período quaresmal, faz-nos compreender o significado redentor dela: a Encarnação está intimamente ligada com a Redenção, que Jesus realizou derramando o Seu sangue por nós na Cruz.
Eis que venho para fazer, ó Deus, a Tua vontade. Para quê esta obediência, para quê este abaixamento e para quê este sofrer? Responde-nos o Credo: «Propter nos homines et propter nostram salutem: Por nós, homens, e para a nossa salvação». Jesus desceu do Céu para fazer subir depois lá para cima, com pleno direito, o homem, e, tornando-o filho do Filho, restituí-lo à dignidade perdida com o pecado. Veio para levar a efeito o plano original da Aliança. A Encarnação confere para sempre ao homem a sua extraordinária, única e inefável dignidade. E daqui se origina o caminho que a Igreja percorre. Como escrevi na minha primeira Encíclica: «Cristo Senhor indicou este caminho sobretudo quando — como ensina o Concílio — 'com a encarnação o Filho de Deus se uniu em certo modo a cada homem' (Gaudium et Spes, 22). A Igreja reconhece, pois, o seu encargo fundamental de fazer que tal união possa continuamente realizar-se e renovar-se. A Igreja deseja servir este único fim: poder cada homem reencontrar Cristo, para que possa Cristo, com cada um, percorrer o caminho da vida, com o poder daquela Verdade sobre o homem e sobre o mundo, contida no mistério da Encarnação e da Redenção» (Redemptor Hominis, 13).
5. A Igreja não esquece — como poderia fazê-lo? — que o Verbo, neste acontecimento que hoje recordamos, se oferece ao Pai para a salvação do homem, para a dignidade do homem. Naquele acto de oferta de Si mesmo está contido já todo o valor salvífico da Sua missão messiânica; tudo está já encerrado «in nuce» aqui, nesta misteriosa entrada do «Sol de justiça» (cf. Mateus 4, 2) nas trevas deste mundo, que não O admitiram (cf. João 1, 5). Mas, assegura-nos o evangelista João «a todos os que O receberam, aos que crêem n'Ele, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus; ... nasceram de Deus. E o Verbo fez-Se homem e habitou entre nós, e nós vimos a Sua glória, glória que vem do Pai, como Filho único, cheio de graça e de verdade» (João 1, 12 ss.).
Sim, Irmãos caríssimos e Irmãs, vimos a Sua glória. A Liturgia apresentou-no-la hoje diante dos olhos na sua misteriosa e inefável grandeza, que nos vence com a sua magnificência e nos sustenta com a sua humildade: «O Verbo fez-Se homem e habitou entre nós».
Acolhamo-l'O.
Digamos-Lhe também nós: Eis-me aqui, venho cumprir a Tua vontade. Estejamos disponíveis para a acção do Verbo, que deseja salvar o mundo também mediante a colaboração de todos os que acreditámos n'Ele. Acolhamo-1'O. E com Ele, acolhamos cada homem. As trevas parecem ainda querer sempre prevalecer: a riqueza iníqua, o egoísmo indiferente ao sofrimento dos outros, a desconfiança recíproca, as inimizades entre os povos, o hedonismo, que entenebrece a razão e perverte a dignidade humana, todos os pecados que ofendem a Deus e vão contra o amor do próximo. Devemos dar, até no meio de tantos contratestemunhos, o testemunho da fidelidade; devemos ser, até entre tantos não-valores, o valor do bem que vence o mal com a sua força intrínseca. A Cruz de Cristo dá-nos a força para isso, a obediência de Maria dá-nos o exemplo. Não recuemos. Não nos envergonhemos da nossa fé. Sejamos astros que brilham no mundo, luz que atrai e calor que persuade.
Com a minha Bênção Apostólica.

© Copyright 1981 - Libreria Editrice Vaticana — www.vatican.va —

João Paulo II - Karol Józef Wojtyła
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.5.13 | Sem comentários
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