Esta é a nossa fé [23]

Reflexão semanal 
sobre o Credo Niceno-constantinopolitano

A ressurreição de Jesus Cristo está na base da fé cristã (cf. Catecismo da Igreja Católica, 571). A afirmação da ressurreição é o primeiro «credo» cristão. O cristianismo tem o seu primeiro fundamento no «acontecimento pascal»: morte e ressurreição de Jesus Cristo. «Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã é também a vossa fé» — escreve Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (15, 14). Os discípulos revelam que há um acontecimento que transforma as suas vidas: o crucificado ressuscitou, está vivo. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Atos dos Apóstolos 10, 34-43; Catecismo da Igreja Católica, números 638 a 658]

«Deus ressuscitou-o, ao terceiro dia» — afirma Pedro na casa do centurião romano Cornélio. Os evangelhos (Mateus 28, Marcos 16, Lucas 24, João 20) descrevem a experiência pessoal («aparição») dos discípulos que testemunham o Crucificado-Ressuscitado. No discurso de Pedro, em Cesareia, na casa de Cornélio percebe-se que a ressurreição não é fruto de um acaso ou um facto isolado; a ressurreição é o culminar do estilo de vida assumido por Jesus Cristo, é a plenitude da sua missão. Em primeiro lugar, Pedro afirma que Jesus de Nazaré foi «ungido» por Deus; depois, refere a ação realizada por Jesus em diversos lugares («fazendo o bem»; «curando»); em seguida, Pedro testemunha a morte na cruz («madeiro») e a ressurreição ao terceiro dia; o discurso termina com as consequências da fé cristã neste «acontecimento pascal». Há uma nova maneira de viver iluminada pela existência terrena de Jesus Cristo que culmina com a ressurreição.

Ressuscitou. A ressurreição de Jesus Cristo assinala o cumprimento do projeto salvador. Toda a história da salvação é lida a partir deste acontecimento. Apesar de ser o centro da fé cristã, infelizmente há muita confusão (entre os próprios cristãos) sobre o verdadeiro significado da ressurreição. «Trata-se de um acontecimento real e transcendente, verificável pelos seus sinais, mas que permanece oculto. Tem a Trindade como protagonista. A ressurreição acontece pelo poder do Pai que ressuscita, do Filho que vence a morte e do Espírito que vivifica (cf. Catecismo da Igreja Católica, 648). É um acontecimento transcendente, não está documentado historicamente. Mas é real; há uma série de manifestações que indiciam a realidade da ressurreição» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 121). Em primeiro lugar, precisamos de entender que a ressurreição não se pode associar às categorias de espaço e de tempo onde nos situamos atualmente. A ressurreição não consiste em regressar a uma existência espácio-temporal (situada no espaço e no tempo). A ressurreição não é uma reanimação do cadáver. A morte não é anulada na ressurreição (cf. temas 21 e 22)! «Pelo contrário, a morte é definitivamente superada. Trata-se da entrada numa vida totalmente diferente, imperecível, eterna, ‘celestial’» (Hans Küng, «Credo. A Profissão de Fé Apostólica explicada ao Homem Contemporâneo», Instituto Piaget, Coleção «Crença e Razão» 14, Lisboa 1997, 130). A ressurreição também não consiste na continuidade desta existência espácio-temporal. Em rigor, não podemos falar de um «depois» da morte, pois a dimensão temporal deixa de ter sentido: «a eternidade não é determinada por um antes nem por um depois temporais. Pelo contrário, significa uma nova vida na esfera de Deus, invisível, incompreensível, que rompe com as dimensões de espaço e tempo» (Hans Küng, 131). É o que habitualmente designamos por «céus». A ressurreição permite afirmar que a morte não é a afirmação do «Nada», mas do «Tudo»: «o crente sabe que a morte é a passagem para Deus, é a retirada para junto de Deus, nesse domínio que supera todas as ideias, que nenhum Homem alguma vez viu, alheio ao nosso toque, entendimento, reflexão e fantasia! A palavra mistério é bem empregue para descrever a ressurreição para a vida nova, porquanto se trata do domínio primordial de Deus» (Hans Küng, 131). 

Ao terceiro dia. Dizer que Jesus Cristo «ressuscitou ao terceiro dia» é mais do que uma referência cronológica. Entre os judeus, acredita-se que Deus não deixa o justo sofrer mais de três dias (cf. Genesi Rabbah 91, 7). Na Bíblia, expressa a novidade da ação de Deus. Afirma o profeta Oseias (6, 2): «Dar-nos-á de novo a vida em dois dias, ao terceiro dia nos levantará, e viveremos na sua presença». 

A ressurreição de Jesus Cristo inaugura esse tempo novo vivido na plenitude da presença de Deus. É o cumprimento de todas as promessas e profecias. Jesus Cristo «ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras».

  


© Laboratório da fé, 2013

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.4.13 | Sem comentários
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