A Pastoral da Saúde no Laboratório da fé


Porque tudo o que fazemos na vida tem um fundamento pessoal, profissional ou social só poderá causar-nos uma imensa estranheza não ter resposta para dar à pergunta: “o que a levou a querer ser voluntária?”. A admiração é tanta para quem responde, e afinal não o faz, como para quem deve(ria) receber a resposta. Os segundos que a ela se seguiram mais não foram do que uma perturbadora procura em ficheiros mentais habituados a surpresas e a única ideia que surgiu foi a de citar uma certa oração; no entanto, mais seria a despropósito do que qualquer outra resposta porque se ainda hoje não posso afirmá-lo, de longe a presunção de que o meu propósito de ser voluntária no IPO tenha tido por motivação um chamamento divino, uma experiência paulina, sendo o itinerário o Porto (e não Damasco).
Passada a entrevista, passada a formação-orientação, passados alguns anos, só posso manifestar o meu profundo bem-estar que quase se nega a ser exprimido porque aquilo que deveria ser um sacrifício semanal é, afinal, um regozijo.
O tempo que é vivido de forma intensa e o espaço específico de onde se testemunha cada dor muito daria para trazer à memória episódios de vidas marcadas pelo sofrimento físico e emocional.
Se os meus amigos lessem este texto diriam que já conhecem esta história de cor e salteado… mas o que nos marca faz tudo o resto que vivemos ser tão “nada”. Tenho ainda, até hoje, no bolso da bata branca o terço singelo de plástico que me fora dado por alguém que me questionava, num qualquer corredor, sobre a minha crença em Deus. O meu silêncio e um ténue sorriso foram assumidos como um sim e foi-me entregue o terço e com ele a incumbência de rezar a Deus pela saúde de alguém que eu não sabia quem era e em vez de alguém que entendeu que as suas preces já não eram ouvidas nem atendidas. A sua relativa agileza no andar quando se afastou de mim era reveladora de que aquele desalento era emocional e não físico e as acusações a Deus de falta de atenção não eram para si próprio.
A acompanhar as fases que lhe são próprias de desânimo e de ânimo, reais ou desejadas, há uma aproximação e um afastamento com Deus que se vive numa constante alternância e intermitência quando o vocábulo cancro passa a ser o centro de uma vida ou de muitas… e não há protótipos de comportamento quando a doença é do próprio que apela a Deus ou se confronta com Ele, mas é tão raro que não seja de afastamento quando é aos seres queridos que vêm definhar.
Compreendo os rancores, compreendo a renegação e até mesmo o amaldiçoamento a Deus. E deixo sempre que sejam as minhas mãos a falar em mimos e em pensamentos com palavras de S. Francisco de Assis que tantas vezes digo a mim própria: “Onde houver desespero, que eu leve a esperança; Onde houver tristeza, que eu leve a alegria”. À segunda tarefa ainda não me atrevo, a primeira ainda estou a aprendê-la. Porém, da minha boca nunca saem palavras que, quaisquer que fossem, seriam sempre uma tentativa infrutífera de apaziguamento e sempre terrivelmente entendidas como a minimização do que é desmedido. Mas numa dor imensurável como a dor de ver partir um filho só pode estar o apoio de Deus que se faz de silêncio. Nenhuma força humana seria tão forte ao ponto de ser resistente a essa dor. E ao contrário dos seres humanos que, quando repudiados se mostram reticentes e mais ainda muitas vezes incapazes de se manterem ao lado de quem os repudia, Deus mantém-se, aconchega e acalenta.
E a cada regresso, que intimamente chamo de missão cumprida, trago comigo imagens de dor, que procurei acalentar e um silêncio, sem rádio na viagem, que não sendo ensurdecedor, faz um eco no meu espírito e a oração que não foi dita na entrevista surge com naturalidade:
“Deus, concedei-me,
a serenidade para aceitar as coisas que eu não posso modificar;
Coragem para modificar as coisas que posso,
e Sabedoria para saber a diferença…”
(Oração da Serenidade).

Sílvia Fernandes
www.laboratoriodafe.net
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.4.13 | Sem comentários
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