Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

É muito sugestivo que o Credo da fé cristã afirme tal como foi formulado no século IV: «Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: [...] gerado, não criado». Mais ainda: há um Concílio da antiguidade (Concílio de Toledo, no ano 675) que afirma: «o Filho foi gerado e nasceu do seio do Pai». Ou seja, Deus Pai tem um filho, que nasce do seu seio, porque foi gerado por ele. Nós não costumamos dizer que o pai gera e muito menos que tem um seio. A que gera, a que dá à luz, a que transporta a criança no seu seio, é a mãe, embora evidentemente o pai intervenha na geração. Em todo o caso, entrar por estas questões de tipo sexual para ver até que ponto se podem aplicar a Deus parece-me um equívoco. Porque Deus está para além das distinções sexuais. Em todo o caso, uma boa analogia para entender a «geração» em Deus seria a da inteligência humana que gera a palavra.
Pois bem, o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus. Daqui se deduz que, em certo sentido, Deus é semelhante ao ser humano. E, portanto, tem que integrar na sua realidade divina o que no nosso contexto se chama masculino e feminino. De facto, na Sagrada Escritura, atribuem-se a Deus qualidade tanto masculinas como femininas. O Antigo Testamento apresenta várias vezes o amor de Deus pelo seu povo sob a figura de uma mãe. O profeta Isaías (49, 14-15) compara Deus com uma mulher que não esquece o filho gerado nas suas entranhas. Em Isaías 66, 13 diz-se que Yahvé consola como uma mãe; no Salmo 131 compara-se Deus com o regaço de uma mãe; e, noutros textos, o amor de Deus é comparado ao amor de uma mãe que leva o povo no próprio seio, dando-o à luz com dor, alimentando-o e consolando-o (Isaías 42, 14; 46, 3-4).

Parábola do filho pródigo ou do pai misericordioso

Naquela que é conhecida como a parábola do filho pródigo, a reação do pai diante do filho que volta evoca as entranhas maternas: «ainda ele estava longe quando o pai o viu; comovido nas suas entranhas, correu ao seu encontro e lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos» (Lucas 15, 20). Aqui, as características são mais maternas que paternas. Trata-se de um pai com sentimentos e entranhas maternas. Para caracterizar o Pai do Céu não bastam as características do pai terreno; é preciso junta também as perfeições da mãe. Só assumindo as duas figuras de pai-mãe expressamos o que acreditamos pela fé: há um mistério último, acolhedor, fonte e princípio de tudo, que nos convida à comunhão, do qual tudo procede e para o qual tudo se encaminha: o pai e mãe celestial.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 19.4.13 | Sem comentários
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