Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Quando um cristão, em nome da sua fé, levanta a voz em questões de moral social, de justiça, de solidariedade, de partilha de bens, há sempre quem diga: está a meter-se na política. Pois sim, claro que é meter-se na politica. Mas não dizer nada, ou falar só de família e sexualidade, também é meter-se na política. A questão não é se fazemos ou não fazemos política, porque qualquer coisa que façamos é sempre política. A questão é sobre o tipo de política que fazemos e porque fazemos esse tipo de política.
Santa Catarina de Sena, padroeira da Europa, cuja festa se celebra a 29 de abril, meteu-se na política. A vocação orante de Catarina compagina-se perfeitamente com as suas engenhosas maneiras de servir os pobres. Ela sai à rua para se ocupar dos enfermos com doenças contagiosas, que ninguém quer atender e que sofrem uma contínua solidão. Escuta com atenção o grito dos pobres, dos doentes, novos Cristos sofredores. Quanto mais Catarina avança na vida do Espírito, tanto mais se compromete com o mundo. Identificada plenamente com os sentimentos de Cristo, converte-se numa pregadora itinerante que tem a rua como púlpito. E, com a sua escassa cultura, fala com sabedoria perante as autoridades e até perante o próprio Papa, diante de políticos e de eclesiásticos, desafiando-os a mudar de atitudes. Algo inédito para uma mulher de 25 anos, no século XIV. Seria muito atrevido apresentá-la com as características de algumas indignadas de hoje que com uma idade similar têm reclamado outra política e outra economia nas praças e nas ruas das cidades espanholas?
Em todo o caso, Catarina de Sena é um claro exemplo de que quanto mais se está enraizado em Deus, tanto melhor se é apóstolo. Uma coisa leva à outra, pois a oração nunca é uma evasão das nossas responsabilidades terrenas, nem a mística um esquecimento das necessidades da terra. Ao contrário, a contemplação das coisas divinas leva-nos a uma visão apurada das misérias e dores humanas. A união com Deus mostra a sua autenticidade no serviço ao próximo. Amor a Deus e amor ao próximo são inseparáveis; e um é a melhor prova do outro.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 28.4.13 | Sem comentários
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