A missão no Laboratório da fé


Eram 5h30 da manhã quando bateu à porta da casa velha da missão o mundo despedaçado do Fernando. Vinha «mal doente» da vida. Sentou-se numa velha cadeira e soltou os gritos que moravam dentro de si. Quando alguém está sofrer e vai à casa do mais velho (presbítero) este deve cumprir um velho ritual macua de o ouvir como se ouve o leito de um rio habitado por crocodilos.
Contou-me que durante a noite, quando regressava de casa de familiares encontrou a sua esposa, na intimidade com outro homem. Tal crime teria que ser lavado com sangue dizia-me ele. Na sua tribo quando alguém dorme com a «mulher do dono» deve ser decapitado.
Fernando tinha sido catecúmeno durante mais de 10 anos. Tendo terminado os ritos de iniciação nunca era eleito para o batismo, porque o seu comportamento não era o de um cristão, diziam os anciãos da comunidade. Depois de ter feito várias conversões da sua vida foi eleito para o batismo. Nesse mesmo dia contraiu matrimónio com a sua esposa. Eram casados catolicamente à 14 anos e viviam juntos à mais de 20 anos.
Fernando tinha um enigma dentro de si quando me veio consultar. Se decapitasse aquele homem e despedisse a sua esposa de casa cumpria as regras da tribo e seria honrado por todos. Se perdoasse à sua esposa e ao seu amante revelaria que era um verdadeiro cristão, mas teria que aguentar a troça e as injúrias dos responsáveis da sua tribo. Depois de conversarmos durante algum tempo disse ao Fernando que ele deveria escolher a que família queria pertencer ou à sua tribo ou aos cristãos. A escolha era dele. Não valia ficar no talvez. Passadas três semanas o Fernando morreu de malária.
Fui visitar a sua comunidade no dia em que iam colocar a cruz onde jazia a sua memória. Nestas comunidades cristãs africanas nem todos quando morrem têm direito a cruz no cemitério. Só tem direito quem soube carregar a cruz de Cristo na sua vida e foi fiel aos compromissos do seu batismo. Essa decisão era tomada pelo conselho da comunidade. Nesse dia tive conhecimento da escolha do Fernando. Ele decidiu perdoar à sua esposa e ao seu amante. No cemitério de Marrera a maior cruz é a do Fernando.

Seguir Jesus Cristo — Páscoa — Laboratório da fé

Há um mistério para lá de todos os caminhos, do qual tentamos aproximar-nos. Aquilo que vemos só vale a nossos olhos por aquilo que nos olha. Só podemos pensar e ver a partir da experiência do tocar. Nós somos aquilo que nos aparece, o que nos acontece e que vamos sendo. Neste vamos sendo à necessidade de viver cada história mais por dentro do que por fora. Esta história do Fernando é o mais belo retrato que conheço do seguimento de Jesus Ressuscitado.
A Páscoa fala de tudo o que pulsa, tudo o que vibra, tudo o que chora e canta, tudo o que viceja e floresce, tudo o que é húmus/humano, tudo o que é Terra. Fala da solidão, do desencanto, da angústia, da alegria, do encanto e da entrega. Fala que a dor e a morte, sempre presentes, não têm a última palavra!
A história do Fernando ajuda-me a refletir que é preciso voltar a Jesus Cristo, ao que ele foi, é, quis e quer. Realmente, como escreveu o teólogo Hans Küng, os cristãos são os que acreditam em Jesus Cristo: «São aqueles que fazem parte da comunidade dos que se entregaram e entregam a Jesus e à sua causa e a testemunham com energia como esperança para o mundo».
Trata-se de imitar Cristo. Imitar Cristo não é adotar um aspeto. É repetir um processo ao mesmo tempo ungir o Cristo, como Maria Madalena e ser lacerado, crucificado. O «parecer» cristão é a procura do contacto, da indicialidade, do testemunho carnal, do martírio.
A Páscoa devia tornar-nos próximos uns dos outros. Deveria possibilitar sermos habitados pelo perdão e pelo amor. O ódio é anti-páscoa.
Recordo-me de uma história que ouvi de um velho macua, que em Motobo, no Gabão, os Ku crêem que o único modo de acabar com o sofrimento é salvar uma vida. Se alguém for assassinado, um ano de luto acaba com um ritual que se chama «Julgamento do Afogado». Há uma festa que dura toda a noite junto ao rio. Na alvorada, o assassino é colocado num barco, levado para a água e largado. Fica amarrado para não poder nadar. A família do morto tem então de fazer uma opção. Podem deixá-lo afogar-se ou podem nadar para salvá-lo. Os Ku crêem que se a família deixar o assassino afogar-se terão justiça, mas passarão o resto da vida de luto. Mas se salvarem, se admitirem que a vida nem sempre é justa esse mesmo ato pode afastar o seu sofrimento. A vingança é uma forma preguiçosa de luto.
A Páscoa devia ser um ‘talante’ de vida. Que devia fazer vibrar os afetos, gerar laços vitais, mobilizar a inteligência e interpelar a liberdade. A Páscoa devia tornar-nos próximos uns dos outros. Segundo a sua etimologia, o termo latino «proximus» é um superlativo da palavra «prope» que significa perto. Próximo significa, portanto, «mais perto», «muito perto». É esse o significado que a palavra próximo tem, mais ou menos, em todas as línguas. Contudo há uma mudança de sentido quando se passa da distância para a proximidade, como diz a carta aos Efésios (2, 13), falando do renascimento em Cristo:« Vós, que outrora estáveis longe, agora estais perto (próximos)».
Não sei se estamos mais longe ou mais perto da Páscoa do que os cristãos de Éfeso. O tempo da Páscoa é um tempo diferente. Não é o tempo segmentado de «chrónos», em que se sucedem os dias e as horas, mas um tempo novo e insuspeito, que a Bíblia chama «kairós», que se mede, não pela quantidade, mas pela qualidade, não pelo que passa, mas pela plenitude: trata-se da enchente da Palavra de Deus que, inundando a nossa vida, reclama a nossa resposta amante e transforma a nossa vida em momentos de escolhas difíceis.

Padre João Miguel Torres Campos

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.4.13 | Sem comentários
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