As obras de arte no Laboratório da fé


Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso,
Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis


http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/64/Creaci%C3%B3n_de_Ad%C3%A1n_(Miguel_%C3%81ngel).jpg
Teto da capela Sistina (1512) – Michelangelo (1475-1564)

Incontestavelmente o fresco do teto da Capela Sistina realizado por Michelangelo pode ser contado entre as maravilhas do génio humano, um dos maiores tesouros artísticos da humanidade. Ao que parece, o pintor terá posto mãos à obra contrariado pois julgava que esta encomenda do Papa Júlio II era um conluio de seus rivais para desviá-lo de uma outra obra para a qual havia sido chamado a Roma: o mausoléu do Papa. De facto, Michelangelo considerava-se muito mais escultor que pintor.
A parte central da abóbada apresenta nove histórias do livro dos Génesis divididas em três grupos de três relativas à origem do universo, do homem e do mal. Os três primeiros episódios [separação da luz das trevas (Gen 1, 1-5), criação dos astros e das plantas (Gen 1, 11-19), separação da terra e das águas (Gen 1, 9-10)] dominados pela presença de Deus, criador do universo. Segue-se a criação de Adão (Gen 1, 26-27) e de Eva (Gen 2, 18-25) onde o homem e a mulher aparecem na sua nudez, símbolo da inocência (Gen 2, 25), perdida com o pecado original, (Gen 3, 1-13), representado no painel seguinte com a consequente expulsão do Paraíso Terrestre (Gen 3, 22-24). Os três últimos painéis [Sacrifício de Noé (Gen 8, 15-20), Dilúvio universal (Gen 6, 5 - 8, 20), Embriaguez de Noé (Gen 9, 20-27)] mostram a queda da humanidade e o seu renascimento com Noé.
O elemento mais famoso deste conjunto de nove painéis é sem dúvida a criação de Adão. Muitíssima literatura foi já produzida para tentar desvendar o mistério desta composição tentando interpretar cada um dos seus elementos. Podemos certamente identificar dois cenários principais: um terreno onde Adão está deitado e um celeste onde Deus se encontra. Os dois elementos tentam unir-se pelos dedos indicadores da mão esquerda de Adão e da mão direita de Deus. O elemento vermelho que envolve Deus e os outros personagens que o rodeiam tem a forma anatómica quase perfeita de um cérebro incluindo o lobo frontal, nervo ótico, glândula pituitária e o cerebelo. A própria ligação sem toque das mãos de Deus e do homem fazem lembrar as sinapses das células nervosas. A figura feminina que segura o braço esquerdo de Deus foi interpretada de várias formas, desde a Virgem Maria ou a alma de Adão ou até à Sabedoria divina que estava junto de Deus antes do ato criador numa referência ao livro dos Provérbios: “O Senhor criou-me, como primícias das suas obras, desde o princípio, antes que criasse coisa alguma. Desde a eternidade fui formada, desde as origens, antes dos primórdios da terra. Ainda não havia os abismos e eu já tinha sido concebida; ainda as fontes das águas não tinham brotado; antes que as montanhas fossem implantadas, antes de haver outeiros, eu já tinha nascido. Ainda Ele não tinha criado a terra nem os campos, nem os primeiros elementos do mundo.” (Pr 8, 22-26). O dedo indicador direito de Deus faz certamente alusão hino medieval “Veni creator spiritus” onde o Espírito Santo é chamado “ Dedo indicador da mão direita de Deus.” “Tu septiformis munere, Digitus Paternae dexterae, Tu rite promissum Patris, Sermone ditans guttura.”
Como sempre, as obras-primas da arte permitem interpretações infindas pois elas são simultaneamente momentos únicos de criatividade e eco da tradição espiritual da humanidade.

Padre Hermenegildo das Neves Faria

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.4.13 | Sem comentários
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