Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

«Dai-lhes vós de comer»

Nestes últimos dias, li que o Papa disse aos sem abrigo: «levo-vos no meu coração, estou à vossa disposição». São palavras na linha daquelas que pronunciou, parece que de forma quase espontânea (e essas espontaneidades refletem o que há no coração), ao dizer que queria uma Igreja pobre e para os pobres. A pobreza evangélica tem que ver com a simplicidade de coração e com a austeridade de vida. Tem que ver com a confiança em Deus. Mas também se manifesta em atos proféticos de solidariedade com aqueles que são pobres, materialmente falando.
Há uma palavra de Jesus que, levada a sério, pode suscitar atos proféticos: «dai-lhes vós de comer». Tão interessante como a palavra é o contexto que a suscita. A multidão congrega-se à volta de Jesus e escuta os seus ensinamentos. De imediato, os discípulos dão-se conta de que é tarde e estão num descampado. Aconselham Jesus a dizer às pessoas que se desloquem às aldeias vizinhas para encontrar comida. É a solução mais lógica e sensata. Jesus responde: «dai-lhes vós de comer». Entre a multidão, há um rapazinho que tem comida, mas é claramente insuficiente: cinco pães e dois peixes (Marcos 6, 30-44). Então Jesus, depois de pronunciar a bênção, parte os pães e manda que sejam distribuídos. Já sabemos que, no final, sobrou comida. O ensinamento de fundo: o pão, quando é escasso, mas é partido e repartido, chega para todos; se é abundante, mas fica apenas para um, é um só que come e todos os outros passam fome.
A questão não é, portanto, de quantos recursos dispõe o Estado ou o Município. A questão é se os reparte e como os reparte. Desgraçadamente, nas nossas cidades, cada vez há mais gente à espera de um pouco de pão diante dos refeitórios sociais, albergues e escritórios da Cáritas. A maioria são estrangeiros, mas cada vez há mais espanhóis [portugueses]. As perguntas que se podem colocar são muitas: como é que as instituições caritativas conseguem alimentos? A que dedicam os seus recursos as instituições oficiais? Com que critério se elaboram os pressupostos do Estado, da Comunidade, do Município? O que é que tem a primazia? Diz-se e repete-se que a primazia pertence às pensões, ao ensino e à saúde. Não é verdade. A primazia pertence aos interesses instalados. Porque é que o Estado não declara a suspensão dos pagamentos? Não seria a primeira vez que o faz, nem o primeiro a fazê-lo. Todas as grandes nações já o fizeram alguma vez e a economia ressurgiu com mais força.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
A utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor



Nihil obstat - www.laboratoriodafe.net
Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 15.4.13 | Sem comentários
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