Eu digo fé. Tu dizes...


O Laboratório da fé convidou algumas pessoas, crentes ou não crentes, para escreverem um texto sobre a fé. O resultado será apresentado, mensalmente, nesta rubrica intitulada: «Eu digo fé. Tu dizes...». 
O texto que se segue é da autoria do doutor António Bagão Félix.

António Bagão Félix, no Laboratório da fé, 2013

O que está para além da dúvida abre-nos para a fé. 
Porque sem a dúvida a fé não existe. 
Ou fingirá que existe, não subsistindo. 
É que ter fé não é encontrar, mas buscar. 
Não é receber, mas dar. 
E na busca e na doação não desfalecer na escuridão. 
E na escuridão acreditar que a fé ilumina. 
E na noite encontrar o espírito na paz do corpo. 
E na luz ver a sincronia do bem, da verdade e da beleza. 

Não se tem fé por se pensar possui-la. É-se em fé se, despojados, nos deixarmos possuir. 
A fé não é a imposição mas a aceitação de não compreender. 
E não compreendendo, sermos senhores de crer ou de não crer. 
Em liberdade. 

A mais pura expressão de fé é sabermo-nos pequenos. Insignificantes. Como a semente. 
E na pequenez não termos pressa ou angústia de o deixarmos de ser. 
Porque a fé não tem medida e exige paciência. 
E na paciência está a maior prova de fé: o sacrifício da purificação. 
E na purificação encontrar o Absoluto e menosprezar o relativo. 
Porque a fé só é plena se o abandono for total. 

Mas como despojarmo-nos de um qualquer nada que se transforma em tudo? 
Como afastar o tudo relativo e buscar o Todo Absoluto? 
Como encontrar a riqueza no deserto? 
Como dizer não ao sim e sim ao não? 
Como valorizar a morte para a vida? 
Como alcançar um minuto que seja de quietude sem mácula? 

Tem-se fé porque se resiste. 
Resiste-se porque Ele ajuda. 
Pedimos-Lhe ajuda porque somos fracos. 
Somos fracos porque não renunciamos.

Buscamos a fé. 
Caímos. Levantamo-nos. Suplicamos. Queremos. Somos. 
Por vezes saciados. Por vezes acorrentados. Por vezes afastados. 
Na procura do sinal. 
Onde já não há tempo, nem razão. 
Mas apenas o que existe na não existência. 
A essência. 
A alma. 

A fé é alegre mas não ri. 
A fé é exigente mas não suplica. 
A fé é poderosa mas não se usa. 
A fé é compassiva mas não passiva. 
A fé é inquietante mas não alienante. 
A fé é o fermento mas não o condimento. 
A fé é o sal mas não o açúcar. 

A fé é a incerteza da certeza. 
A fé é o testemunho da Palavra. 
A fé é a continuação da Esperança. 
E se a Esperança é a Luz, faço fé na fé. 

A Fé não facilita. Dificulta. 
Mas não destrói. Constrói. 
Na amargura da nossa dor. 
No temor do nosso sentimento. 
Na obsessão da nossa procura. 

E assim o fim se torna o princípio. 
E no princípio está o silêncio. 
A expressão sublime da fé. 

© António Bagão Félix
© Laboratório da fé, 2013


Outros textos publicados no Laboratório da fé 

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 11.3.13 | Sem comentários
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