Nihil Obstat — blog de Martín Gelabert Ballester

Eucaristia


Alguns dão uma grande importância ao facto de Jesus, na Quinta-feira Santa, celebrar a Páscoa judaica e, precisamente durante essa celebração, instituir a Eucaristia ou Páscoa cristã. De facto, na liturgia de Quinta-feira Santa, a primeira leitura, retirada do livro do Êxodo, recorda precisamente a Páscoa judaica; e como as leituras da liturgia parece que estão relacionadas é fácil cair na tentação de pensar que esta primeira leitura é um antecedente do que se recorda na segunda leitura que relata a tradição eucarística que recebemos do Senhor.
Hoje, os exegetas e os teólogos não estão de acordo sobre se aquela Ceia, que se comemora na Quinta-feira Santa, foi uma ceia pascal ou uma ceia de despedida. No que parecem estar de acordo é que os relatos sobre aquela ceia têm a marca da prática litúrgica. Mais ainda: estes relatos interpretam as palavras de Jesus sobre o pão e o vinho como uma instituição: o que ali sucedeu devia continuar nas comunidades das discípulas e discípulos de Jesus. E aqui surge uma pergunta decisiva: exatamente, o que foi que o Senhor mandou celebrar e repetir? Joseph Ratzinger responde claramente: o que o Senhor mandou repetir não foi a Ceia pascal (supondo que era isso que celebrava), nem muito menos a sua última refeição na terra antes da morte. O mandato refere-se apenas — diz Ratzinger — àquilo que constituía uma novidade nos gestos realizados por Jesus naquela noite: a fração do pão, a oração de bênção e ação de graças e as palavras sobre o pão e o vinho.
Por outras palavras: o que a Igreja celebra não é a última ceia de Jesus, mas o que o Senhor instituiu durante a última ceia. Não celebramos o que Jesus celebrou, mas o que Jesus fez durante aquela celebração. De facto, nas primeiras comunidades cristãs, a Eucaristia era precedida de uma ceia. Mas devido aos abusos que aconteciam — a saber: que na ceia havia distinção de comensais, os ricos comiam bem e os pobres comiam humildemente (encontramos um bom testemunho disto na Primeira Carta aos Coríntios) — desde muito cedo se separou a «ceia do Senhor» da refeição normal, convertendo a ceia do Senhor numa liturgia. E assim continuamos hoje, com uma liturgia que é memorial da morte e ressurreição de Cristo. Precisamente por isso, o seu «dia» já não é a quinta-feira, mas o domingo, o dia em que Cristo ressuscitou.

© Martín Gelabert Ballester, OP
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 

Outros artigos publicados no Laboratório da fé

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 28.3.13 | Sem comentários
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