Nihil Obstat — blogue de Martín Gelabert Ballester

Na cruz, Jesus vence o ódio com o amor

Segundo o quarto evangelho, os soldados romanos, depois de açoitar Jesus, colocar-lhe uma coroa de espinhos, vestir-lhe um manto de púrpura, esbofeteá-lo e gozá-lo, devolveram-no a Pilatos. ESte, apontando para Jesus, disse à multidão: «aqui tendes o homem», ou mais exatamente: «olhai: este é o homem». Dizer que Jesus é «o homem» é muito mais do que dizer: Jesus é um homem. Não é mais um entre os homens. É «o homem», o protótipo, o paradigma da humanidade; nele realiza-se o que é o ser humano. Segundo interpreta o teólogo Joseph Ratzinger, para uma filósofo cínico como Pilatos, estas palavras significam algo como isto: estamos orgulhosos pelo ser humano, mas agora, contemplai, aqui tendes este verme desapreciado; este é o homem, assim humilhado. Ao olhar para Jesus coroado de espinhos, as palavras de Pilatos mostram com clareza a pequenez do ser humano.
Contudo, o evangelista viu nestas palavras outro sentido teológico e salvífico. Em primeiro lugar: em Jesus maltratado e crucificado podemos ler a crueldade que pode existir no ser humano, até onde pode chegar a maldade humana; em Jesus crucificado vemos refletida a história do ódio e do pecado, o pecado do mundo. Mas em Jesus crucificado podemos ler também até onde chega o seu amor pelos seres humanos, pois quando o insultavam não devolvia com insultos, na sua paixão não lançava ameaças. As suas palavras na cruz foram de perdão para com aqueles que o martirizavam. Este amor de Jesus é um reflexo do amor de Deus. Portanto: este é o homem que Deus ama e no qual se reflete o amor de Deus para com todos os seres humanos. Alí, nesse homem, realiza-se o desígnio de Deus e a história de amor que quer fazer com cada um de nós. Cito de novo Ratzinger: «Nele, em Jesus Cristo, podemos ler o que é o homem, o projeto de Deus e a nossa relação com ele».
Jesus Cristo é o homem amado por Deus, que dá a sua vida por nós, que morre amando. E ao morrer amando rompe a espiral de violência daqueles que só odeiam. Ao não responder com ódio, vence o ódio e mata-o no seu próprio corpo. Por isso, em Jesus temos o homem, porque só somos homens quando amamos. Na maior degradação, Jesus é amado por Deus e manifesta o amor de Deus e o amor que é Deus. A pergunta sobre quem é o homem encontra a sua resposta no seguimento de Cristo. Ao seguir os seus passos, encontramo-nos com a nossa autêntica humanidade, pois, no seu seguimento, a vida e a morte santificam-se e adquirem um novo sentido.

© Martín Gelabert Ballester, OP

© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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Martín Gelabert Ballester, frade dominicano, nasceu em Manacor (Ilhas Baleares) e reside em Valencia (Espanha). É autor do blogue «Nihil Obstat» (em espanhol), que trata de questões religiosas, teológicas e eclesiais. Pretende ser um espaço de reflexão e diálogo. O autor dedica o seu tempo à pregação e ao ensino da teologia, especialmente antropologia teológica e teologia fundamental. 
Outros artigos publicados no Laboratório da fé


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.3.13 | Sem comentários
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