— A Pastoral da Saúde no laboratório da fé —

Sou testemunha de muitos milagres. Miraculum é espanto. Dizem alguns imprevisíveis “catecúmenos espirituais”[1]: “eu acredito que Deus não me vai abandonar”. Dizem também alguns cristãos de longa data: “não mereço isto. Onde está o Deus em que sempre acreditei”? Palavras inesperadas, mas autênticas, milagrosamente confiadas e dirigidas a Deus no espaço não opcional da saúde...e da doença. (Os miraculados têm nome. Muitas vezes, o meu).

O milagre da transfiguração


Fora avisado com autoridade: “Tenha cuidado. Olhe que os doentes agarram-se a nós e aproveitam-se disso”. Sob este estranho aviso conheci o José.
O José tinha 10 anos quando nos conhecemos. Tinha nascido com uma deficiência profunda o que o tornava muito estranho ao olhar. Não conseguia fechar a boca. Tinha os dentes muito deformados. Uma sonda naso-gástrica para se alimentar. A cabeça muito desproporcional em relação aos membros mas todo ele muito pequeno. O corpo formava uma misteriosa geometria. Não falava nem se mexia. O José tinha somente uma atividade autónoma que exercitava até à exaustão: comunicar com o sorriso e um pequeno som que lhe associava. E se, pela milionésima vez, alguém lhe partia ou deslocava um dos seus ossos tão frágeis na higiene pessoal (tão impossível não o fazer!), ele engolia um pouco de saliva, deixava fugir um som seco... e sorria. E só parava momentaneamente de sorrir quando alguém precisava de o recolocar na cama. Adorava ouvir música, conversar silenciosamente em afetos, adorava passear. Irradiava sorrisos, boa disposição. Num dia muito difícil para o José, perguntou-me uma profissional de saúde – com olhar humedecido – enquanto o cuidava: “é pecado desejar a morte a este menino? E sabe, até lhe desejo mais bem que aos meus filhos”. Não soube, não sei ainda o que lhe responder. O José morreu aos 14 anos. Sei somente duas coisas da sua vida: a) irradiou todos os dias da sua vida um sorriso puro e contagiante; b) se não tivesse usufruído do seu sorriso, este texto não seria escrito por um padre. O milagre. Espero um dia pedir ao José que me ajude a interpretar o milagre da sua vida em mim, a fé de que a vida vale sempre a pena.

Tinha razão: “tenha cuidado, os doentes agarram-se a nós”. E ainda bem que se agarram a nós. Só a força da fragilidade consegue derreter o gelo em que nos enclausuramos por defesa, por medo ou por impotência. Durante a minha infância tive um pároco que – depois de tantos anos naquela paróquia pequenina – chorava em quase todos os funerais. Embargava-se-lhe a voz. As lágrimas corriam-lhe pela face quando sepultava os seus paroquianos. E não guardo outra memória deste sacerdote. Estou convicto que aquelas lágrimas contribuíram mais para o despertar vocacional que todas as suas homilias.
Padres e médicos sofrem particularmente mal (se podemos falar de um modo bom de sofrer). Genericamente descuidados pela sua saúde, convivemos mal com o nosso próprio sofrimento, desde o físico ao espiritual, passando pelo afetivo. Talvez pelo ministério que nos está confiado de curar, de pretensamente termos de gerir uma elevada expectativa que os outros têm sobre nós. Talvez pela não admissão do erro, pela sensação de não-poder e de não controlo, ou pela admissão tardia da nossa fragilidade. É cruel o diagnóstico de João Lobo Antunes sobre os médicos: “heróis egocêntricos, afirmativos, solitários, que tão bem ocultam a sua inseguran­ça, que tão rapidamente metabolizam o erro”[2]. Bons samaritanos desiludidos... que deveriam ser somente bons samaritanos feridos. E pode alguém tratar das feridas dos outros sem que tenha consciência e integre as suas? Não cairão juntos em algum buraco? Devo eu deixar-me contagiar, contaminar pelo sofrimento do outro? Dizia alguém que todos – no fundo – somos inimigos da cruz e do presépio... os dois locais mais fecundos e mais frágeis. 

Pe. Jorge Filipe Vilaça Barbosa

[1] GALLAGHER Michael Paul, Dive deeper, the human poetry of Faith, Darton-Logman and Todd, Londres, 2007, 8
[2] LOBO ANTUNES, João, O sabor da nossa qualidade, Sobre a Mão e outros Ensaios, Gradiva, Lisboa 2005.
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.3.13 | Sem comentários
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