Eu digo fé. Tu dizes...


O Laboratório da fé convidou algumas pessoas, crentes ou não crentes, para escreverem um texto sobre a fé. O resultado será apresentado, mensalmente, nesta rubrica intitulada: «Eu digo fé. Tu dizes...». 
O (primeiro) texto é da autoria do Cónego Manuel Joaquim Fernandes da Costa, pároco e arcipreste em Braga.

Manuel Joaquim Fernandes da Costa, no Laboratório da fé, 2013

Pode parecer estranho este título mas é realmente o que sinto quando olho para o meu percurso pessoal e me detenho nos meus primeiros anos de vida. À memória vêm-me palavras, gestos, cuidados dos meus pais que me fazem dizer que a minha fé foi despertando à medida que me era servido o prato essencial do amor no leite materno, no amor respirado na família.
Recordo os pais no quarto, sentados na cama com quatro e depois cinco filhos, a repetir aquelas orações mais comuns: Pai-nosso, Avé-Maria, Anjo da Guarda. Recordo que, decorrido algum tempo, quando já íamos tomando parte nos trabalhos domésticos e agrícolas e a jornada se prolongava, quando íamos para o descanso, já sem ambiente para a reunião familiar em oração, ouvia-se a voz do pai que, do seu quarto, dizia: “meninos … ao menos três Avé-Marias!”
Recordo o percurso de 45 minutos a pé para a celebração da Eucaristia das 7H00 da manhã na igreja paroquial de S. Vitor, a atitude e a missão daqueles que aí cantavam ou proclamavam a Palavra.
Recordo as minhas primeiras idas à catequese, nos Franciscanos de Montariol e a beleza, motivação e alegria solene do mês de maio com flores e com pagelas para colorir.
Recordo a simplicidade da festa da primeira comunhão com tanta alegria à mistura com pobreza e simplicidade.
Recordo o momento matinal em que o pai fazia o sinal da cruz antes de colocar o capacete e pegar na motorizada para ir para o trabalho.
Recordo aqueles dias de trabalho no campo, no diálogo com a mãe e os irmãos e de como era natural e frequente a mãe introduzir espontaneamente a Palavra de Deus que tinha ouvido no domingo, na eucaristia, naquilo que eram as temáticas mais naturais e espontâneas das conversas, dos diálogos.
Recordo a participação na Eucaristia e o momento solene da elevação da hóstia consagrada e do cálice e o sussurro da mãe ao meu ouvido e que me dizia: “ diz comigo – meu Senhor e meu Deus, creio firmemente que estais aqui verdadeiramente presente, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade, tão real e perfeitamente como estais presente nos altos Céus!”.
Recordo a minha entrada no Seminário e uma pequena oração que aí comecei a fazer e que sempre me acompanha: “Meu Deus, eu creio em Vós, mas aumentai a minha fé!”. Todo o percurso do Seminário, durante onze anos, foi uma descoberta da beleza libertadora a fé. Foi um caminho iniciado que me motivou e me fez sentir chamado para partilhar, celebrar e anunciar essa mesma fé!
Recordo… tenho tudo isso e muito mais gravado no coração e que me deixou um lastro de alegria e de amor! 
A fé, para mim, é o grande dom que me abre sem cessar ao infinito Amor de Deus e que me torna atento e disponível para os outros. Ela traz-me a serena convicção de que posso olhar cada pessoa e senti-la como dom e reflexo de Deus bom!
Com a fé, perante as dificuldades e as dúvidas, sempre sobressai o brilho e a brisa suave da presença amorosa de Deus. Perante o pecado, a falha, sinto o alento de quem se sente esperado para que a vida nova e a alegria do perdão relancem no caminho do progresso, do aperfeiçoamento, da vida abundante, da santidade!
A fé é comunicação permanente na abertura a uma Presença de vida sempre abundante. Aquela vida abundante vem da Palavra, dos sacramentos, da contemplação, do diálogo, da certeza de saber que sou sempre esperado, amado!

© P. Manuel Joaquim
© Laboratório da fé, 2013




Outros textos publicados no Laboratório da fé 

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.2.13 | 2 comentários
2 comentários:
  1. Estou de acordo: "fé com leite" foi o início da minha caminhada na fé em Jesus Cristo e na Sua Igreja. Filho de pais "sábios", que não sabiam ler nem escrever, mas souberam "ouvir" e "pôr em prática" o que ouviam da boca de quem consideravam conhecedores dos segredos de Deus a respeito do ser humano.
    Tendo desejado muito ter um filho padre tudo fizeram, com heróico sacrifício, para que tal acontecesse. Não foi essa, porém, a vontade de Deus apesar de tal não compreender. Aceitei o aforisma que tantas vezes ouvira em casa: Deus escreve direito por linhas tortas.
    Muito aprendi com os mestres que tive e disso fez proveito para reorientar a minha vida sem nunca abandonar a fé, o sentido de pertença a uma comunidade e a responsabilidade de contribuir para o crescimentos da mesma.
    Mas as surpresas e sacrifícios não iriam ficar por aqui. Ainda há quem pense que o casamento é solução para uma série de problemas. Se o celibato, livremente aceite, é a liberdade para o serviço aos outros, já não se pode dizer o mesmo do casamento pois, este, implica a comunhão de duas mentes e duas vontades o que, em muitos casos, não é nada fácil. Surgem as dúvidas e as interrogações : "que mal fiz eu a Deus?". Mais uma vez surge, para quem acredita, a resposta: Deus escreve direito por linhas tortas. Há que descobrir a vontade de Deus no meio da tempestade. E a luz surge no meio da escuridão. E o mar parece ganhar "cabelos" e começamos a sentir algo a que nos agarrar. A chama do Baptismo manteve-se, cresceu a acaba por ser, ela mesma, o "SOL" a que teremos de chegar no ocaso da vida.

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    1. Obrigado A. Costa Gomes pelo seu comentário e participação nesta reflexão sobre a fé.

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