— Ano C — Quaresma — Primeiro domingo —

— Evangelho segundo Lucas 4, 1-13

Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, retirou-Se das margens do Jordão. Durante quarenta dias, esteve no deserto, conduzido pelo Espírito, e foi tentado pelo Diabo. Nesses dias não comeu nada e, passado esse tempo, sentiu fome. O Diabo disse-lhe: «Se és Filho de Deus, manda a esta pedra que se transforme em pão». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem’». O Diabo levou-O a um lugar alto e mostrou-Lhe num instante todos os reinos da terra e disse-Lhe: «Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser. Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto’». Então o Diabo levou-O a Jerusalém, colocou-O sobre o pináculo do templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo, porque está escrito: ‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito, para que Te guardem’; e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra’». Jesus respondeu-lhe: «Está mandado: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». Então o Diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação, retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo.

— Jesus: muito para além do hedonismo, da vanglória e do poder 

Temos de superar a perspetiva maniqueísta da Quaresma que vivemos há demasiado tempo. Contudo, o sentido profundo da Quaresma tem de ser mantido e até potenciado. Com efeito, em nenhuma outra época histórica o ser humano se deixou levar tão massivamente pelo hedonismo. À escala mundial, o ser humano converteu-se em produtor-consumidor. O grito de guerra das revoltas estudantis há alguns anos em França era: «Não queremos viver pior do que os nossos pais». Não queriam ganhar menos e consumir menos; nunca fizeram alusão à possibilidade de ser mais ou menos humanos. 
A crise económica que estamos a sofrer pode abrir-nos à compreensão do dilema: queremos consumir mais a todo o custo ou estamos interessados em ser cada vez mais humanos? Em teoria, não haveria problema para responder, mas na prática deixamo-nos levar pelo comodismo a todos os níveis, mesmo que seja à custa de uma menor humanidade. 
Aqui está a razão da Quaresma. Todos temos a obrigação de parar para pensar qual é a meta para a qual nos dirigimos. Alcançar a plenitude humana exige o esforço de não nos deixarmos levar pelo comodismo. Para crescer em humanidade, temos de ir muito além da satisfação dos instintos. Este é o ponto mais interessante para a nossa reflexão no tempo da Quaresma. 

Explicação
Não podemos ficar escandalizados quando os exegetas dizem que estes relatos não são história, mas teologia. Marcos, que foi o primeiro a escrever, reduz o relato a menos de três linhas. Não são crónicas de sucesso, mas descaradamente reais. Empregando símbolos conhecidos por todos, querem-nos fazer ver uma verdade teológica fundamental: a vida humana apresenta-se sempre como uma luta até à morte entre os dois aspetos do nosso ser: por um lado o instintivo ou biológico e, por outro, o espiritual ou transcendente. Se não há luta, é porque já aceitamos a derrota. 
O mito do mal personificado (diabo), atravessou todas as culturas e religiões até aos nossos dias; e, pelo que se pode perceber, tem pano para mangas. A realidade é que não precisamos de nenhum inimigo que nos tente a partir de fora. O diabo nasce como necessidade de explicar o mal, que não pode vir de Deus. Contudo, o mal não tem nenhum mistério; é inerente à nossa condição de criaturas. A vontade só é atraída para o bem, mas como o nosso conhecimento é limitado, a inteligência pode apresentar à vontade um objeto como bom, embora na realidade seja mau. 
O mal é consequência de uma inteligência limitada. Sem conhecimento, a capacidade de eleição seria impossível e não poderia haver mal moral. Se o conhecimento fosse perfeito, também seria impossível a eleição, porque saberíamos o que é mau, e o mal não seria apetecível. Quando a vontade é atraída pelo mal, é sempre consequência duma ignorância. Isto é: acreditamos que é bom para nós o que na realidade é mau. Recorda o que diz o evangelho: «a verdade vos tornará livres». A liberdade de eleição só se pode dar entre dois bens. Erguer uma luta entre o bem e o mal, é puro maniqueísmo. A luta dá-se entre o bem aparente (mal) e o bem real. 
A primeira observação que deveríamos fazer sobre este relato é que, no início, se faz menção, por duas vezes, do Espírito. Cheio do Espírito Santo quer dizer cheio de Deus. Jesus é um ser humano no qual Deus é tudo e que, por isso, atua como o próprio Deus. O tempo de deserto é precisamente um tempo em que essa presença do divino se ativa e se potencia, para que nada do sensível, caduco, terreno, tenha força suficiente para não deixar o divino atuar nele. Se deixamos atuar o Espírito, a vitória está assegurada. 
Que as tentações sejam três, não é casual. Trata-se de um resumo perfeito de todas as relações realizadas pelo ser humano. A tentação consiste em estabelecer uma relação errada connosco, com os outros e com Deus. Uma autêntica relação humana com os outros, que é o que se manifesta na vida real, depende, queiramos ou não, de uma adequada relação connosco e com Deus. 

Primeira tentação: pôr a parte superior do nosso ser ao serviço da inferior. Se és Filho de Deus... Não se deve entender a partir de conceitos dogmáticos próprios do século IV. Não é uma referência à Segunda Pessoa da Trindade. Significa filho no sentido semita. Se tu fizeste sempre a vontade de Deus, também Ele fará o que tu queres. Repara que a tentação de fazer a vontade de Deus para que depois Ele faça o que eu quero, não tem que ser sugerida por nenhum diabo; é o que todos continuamos a fazer todos os dias. Jesus não é fiel a Deus porque é Filho, mas é Filho porque é fiel... 
Diz que estas pedras se convertam em pão. A tentação permanente é deixar-se levar pelos instintos, sentidos, apetites. Isto é fazer sempre o que te apetece. É negar-se a continuar a evoluir e a superar-se a si mesmo, porque isso exige esforço. Os instintos ajudam-nos a garantir o nosso ser animal. Se esse fosse o nosso objetivo, não haveria nenhum mal em segui-los, como fazem os animais. Neles, os instintos nunca são maus. Mas se o nosso objetivo é ser mais humanos, só através do esforço é que o poderemos alcançar, porque temos de ir muito além do puramente biológico. O erro está em usar a inteligência para potenciar o nosso ser animal. 
Nem só de pão vivo o homem. O pão é necessário, mas, nem é a única coisa necessária, nem a mais importante. Para o animal sim, é suficiente. O nosso hedonismo quotidiano demonstra que ainda não aceitamos estas palavras de Jesus. O dar ao corpo aquilo que me pede é para muitos o primeiro e o mais essencial, descuidando a preocupação por tudo aquilo que poderia elevar a nossa humanidade. O antídoto desta tentação é o jejum. Privar-nos voluntariamente daquilo que é bom para o corpo, é a melhor maneira de nos treinarmos para não ceder, em determinado momento, ao que é mau. 

Segunda tentação: Se me adorares, tudo será teu. O poder, em qualquer das suas formas, é a suprema idolatria. O poder traz sempre consigo a opressão, que é o único pecado que existe. Adorar a Deus e prestar-lhe culto não significa ir à procura do deus exterior que precisa de incenso e louvor. Trata-se de descobrir o que há de Deus em nós e potenciá-lo. O nosso autêntico ser não está no ego aparente, na nossa individualidade, mas muito mais fundo. Se descubro o meu ser profundo, não me importará o desprendimento do meu eu; e, em vez de procurar o domínio dos outros, procurarei o serviço a todos. O antídoto é a esmola. Para não cair na tentação de nos aproveitarmos dos outros, temos de fazer exercícios de doação voluntária do que temos e do que somos. 

Terceira tentação: Atira-te daqui abaixo. Realiza um ato verdadeiramente espetacular, para que todo o mundo veja o quanto és grande. Todos te exaltarão e a tua (vã) glória chegará ao topo. A resposta é que deixes Deus ser Deus. Aceita a tua condição de criatura e a partir dessa condição alcança a verdadeira plenitude. Deus não tem que te dar nada. Muito menos dará privilégios a alguém. Já os deu a todos. És tu que tens de descobrir as possibilidades de ser que existem em ti, sem deixares de ser criatura. Já é tempo de deixarmos de acusar Deus de ter feito mal a sua obra e exigir-lhe que a retifique. O antídoto é a oração. Ao dizer oração não queremos dizer «rezas», mas meditação profunda. Descobrir o verdadeiro Deus livrar-me-á de utilizar o deus ídolo. 

Não devemos apresentar a luta contra o mal a partir do voluntarismo, mas a partir de um melhor conhecimento da pessoa, da realidade e de Deus. O pecado não consiste na transgressão de uma lei, mas em danificar o teu próprio ser. A única coisa que a lei pode fazer é advertir-te de que isto ou aquilo te pode fazer mal; mas és tu que tens que descobrir a razão do mal, se queres que a vontade deixe de querer o que te prejudica. 

Meditação-contemplação 
Quaresma é tempo de deserto. 
Caminha até ao teu interior repleto de perigos e ameaças. 
Para chegar ao teu verdadeiro ser, tens que atravessar o teu próprio deserto. 
Liberta-te de tudo o que pensas ser, para chegares ao centro. 
......................................

Só no teu próprio deserto enfrentarás a verdadeira batalha da vida. 
Isso sim, conduzido pelo Espírito. 
No deserto e só, tens que tomar a decisão definitiva. 
Confia. A «terra prometida» está já ali, do outro lado do teu falso eu. 
......................................

Mantém-te no silêncio, até que se derrube o muro que te separa de ti mesmo. 
Só a ignorância nos mantém afastados do SER. 
Deixa que a luz que já está no teu interior te invada por completo. 
Serás feliz e farás felizes os que vivem junto de ti. 
...................................... 

© Fray Marcos — www.feadulta.com — 
© Tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
— a utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor —









Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 16.2.13 | Sem comentários
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