— Discurso do Papa, Bento XVI —

Queridos Amigos:
Estou verdadeiramente feliz por vos encontrar na abertura dos trabalhos da Assembleia Plenária do Pontifício Conselho da Cultura, na qual estareis empenhados em compreender e aprofundar, a partir de diversas perspetivas, as «culturas juvenis emergentes». [...] [Desejo-vos] um profícuo trabalho que possa oferecer um contributo útil para a ação que a Igreja desenvolve perante a realidade juvenil; uma realidade, como se tem dito, complexa e articulada, que não pode mais ser encerrada num universo cultural homogéneo, mas num horizonte que se pode definir como «multiverso», ou seja, determinado por uma pluralidade de pontos de vista, perspetivas e estratégias. Por isso, é oportuno falar de «culturas juvenis», considerando que os elementos que distinguem e diferenciam os fenómenos e os âmbitos culturais prevalecem sobre aqueles, embora presentes, que ao contrário os englobam. Numerosos fatores concorrem, de facto, para esboçar um panorama cultural cada vez mais fragmentado e em contínua, velocíssima evolução, ao que certamente não são estranhos os meios de comunicação social, os novos instrumentos de comunicação que favorecem e, às vezes, eles próprios provocam contínuas e rápidas mudanças de mentalidade, costumes e comportamento.
Assim, confirma-se um clima difundido de instabilidade que toca o âmbito cultural, tal como o político e o económico — este último marcado também pela dificuldade dos jovens em encontrar trabalho —, que influencia sobretudo a nível psicológico e relacional. A incerteza e a fragilidade que marcam muitos jovens não raramente os empurram para a marginalidade, torna-os quase invisíveis e ausentes nos processos históricos e culturais das sociedades. E o aumento frequente de fragilidade e marginalidade desemboca em fenómenos de dependência das drogas, de desvios, de violência. A esfera afetiva e emotiva, o âmbito dos sentimentos assim como o da corporeidade estão fortemente influenciados por este clima e pela intempérie cultural que se expressa, por exemplo, em fenómenos contraditórios, como o ostentar publicamente a vida íntima e pessoal e o ensimesmamento individualista e narcisista nas próprias necessidades e interesses. Também a dimensão religiosa, a experiência de fé e a pertença à Igreja são, muitas vezes, vividas numa perspetiva privada e emotiva.
Contudo, não faltam fenómenos marcadamente positivos. Os impulsos generosos e valentes de tantos jovens voluntários que dedicam as suas melhores energias aos irmãos mais necessitados; a experiência de fé sincera e profunda de tantos rapazes e raparigas que com alegria testemunham a sua pertença à Igreja; os esforços postos em prática para construir, em tantas partes do mundo, sociedades capazes de respeitar a liberdade e a dignidade de todos, a começar pelos mais pequenos e débeis. Tudo isto nos consola e ajuda-nos a traçar um quadro mais preciso e objetivo das culturas juvenis. Portanto, não nos podemos contentar em interpretar os fenómenos culturais juvenis segundo paradigmas consolidados, mas já convertidos em lugares comuns, ou analisá-los com métodos que já não são úteis, partindo de categorias culturais ultrapassadas ou não adequadas.
Definitivamente, encontramo-nos perante uma realidade complexa como nunca, mas também fascinante, compreendida de maneira profunda e amada com grande espírito de empatia, uma realidade da qual é necessário saber captar com atenção as linhas de fundo e as suas evoluções. Observando, por exemplo, os jovens de muitos Países do chamado «Terceiro Mundo», apercebemo-nos de que eles representam, com as suas culturas e necessidades, um desafio para a sociedade do consumismo globalizado, para a cultura dos privilégios adquiridos, da qual beneficia um pequeno círculo da população do mundo ocidental. Em consequência, as culturas juvenis tornam-se «emergentes» também no sentido em que manifestam uma necessidade profunda, uma solicitude de ajuda ou plenamente uma «provocação», que não pode ser ignorada ou descuidada quer pela sociedade civil quer pela comunidade eclesial. Várias vezes manifestei, por exemplo, a minha preocupação e a de toda a Igreja pela denominada «emergência educativa», à qual seguramente se acrescentam outras «emergências», que tocam as diversas dimensões da pessoas e as suas relações fundamentais e às quais não se pode responder de forma evasiva e banal. Penso, por exemplo, na crescente dificuldade no campo do trabalho ou o cansaço em ser fiéis a responsabilidades assumidas. Derivará, para o futuro do mundo e de toda a humanidade, um empobrecimento não só económico e social, mas sobretudo humano e espiritual: se os jovens não esperassem e não progredissem mais, se nas dinâmicas históricas não colocassem a sua energia, vitalidade capacidade de antecipar o futuro, encontrar-nos-íamos com uma humanidade encerrada em si mesma, privada de confiança e de um olhar positivo para o amanhã.
Conscientes de tantas situações problemáticas, que tocam também o âmbito da fé e da pertença à Igreja, queremos renovar a nossa confiança nos jovens, reafirmar que a Igreja olha para a sua condição, culturas, como um ponto de referência essencial e ineludível para a sua ação pastoral. Por isso, queria novamente retomar algumas passagens significativas da Mensagem do II Concílio do Vaticano dirigidas aos jovens, para que sejam um motivo de reflexão e de estímulo para as novas gerações. Em primeiro lugar, afirmava: «A Igreja olha-vos com confiança e amor... Ela possui o que constitui a força e o encanto dos jovens: a faculdade de se alegrar com o que começa, de se dar sem nada exigir, de se renovar e de partir para novas conquistas». Depois, o venerável Paulo VI dirigia este convite aos jovens do mundo: «É em nome deste Deus e de seu Filho Jesus que nós vos exortamos a alargar os vossos corações segundo as dimensões do mundo, a entender o apelo dos vossos irmãos, e a pôr valentemente as vossas energias juvenis ao seu serviço. Lutai contra todo o egoísmo. Recusai dar livre curso aos instintos da violência e do ódio, que geram guerras e um triste cortejo de misérias. Sede generosos, puros, respeitosos, sinceros. E construí com entusiasmo um mundo melhor do que o atual!».
Também eu quero repeti-lo com força: a Igreja tem confiança nos jovens, espera neles e nas suas energias, precisa deles e da sua vitalidade, para continuar a viver com força renovada a missão confiada por Cristo. Desejo vivamente que o Ano da Fé seja, também para as jovens gerações, uma preciosa ocasião para reencontrar e reforçar a amizade com Cristo, que faz brotar a alegria e o entusiasmo para transformar profundamente as culturas e as sociedades.
Queridos amigos, agradecendo o compromisso que com generosidade colocais ao serviço da Igreja, e pela particular atenção que dirigis aos jovens, concedo-vos cordialmente a minha Bênção Apostólica.

© Copyright 2013 - Libreria Editrice Vaticana
© Tradução de Laboratório da fé, 2013, a partir do texto oficial em italiano

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 8.2.13 | Sem comentários
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