— Patrística — Quaresma —

S. Gregório de Nissa


«Há realmente um jejum não corporal e uma temperança não material: a abstinência do mal pela alma convertida. Foi justamente em vista desta que nos foi prescrita a abstinência de alimentos. Por isso jejuai do mal; sede fortes contra os desejos incompatíveis; repeli o ganho ilícito; matai de fome a avareza dos dinheiro; nada haja em tua casa fruto de violência ou de roubo. Que te adianta se não dás carne ao corpo, mas mordes o irmão pela maledicência? Ou que vantagem se não cornes do que é teu, e tomas injustamente aquilo que é do pobre? Que piedade é esta que só bebe água, mas trama enganos e tem sede de sangue pela perversidade? Sem dúvida alguma Judas jejuou com os onze; mas por não ter antes dominado a avareza, de nada lho serviu a abstinência para a salvação. Também o diabo não come, pois é espírito incorpóreo; mas pelo mal do orgulho caiu até o mais fundo. Da mesma forma nem um dos demónios foi condenado por comer carnes assadas nem por muita bebida ou embriaguez. Por natureza não necessitam de alimentos. Mas noite e dia vagueiam pelos ares, artífices e ministros da maldade, e põem seu esforço nas maquinações contra nós. Inveja e calúnia os corromperam. Tendo eles caído da maior familiaridade com o bem, será bom deles fugir se quisermos ser homens que têm parentesco com Deus. 
Seja portanto a sabedoria o educador da vida dos cristãos; e nem queira a alma saber dos danos do mal. Se, apesar de rejeitar o vinho e as carnes, somos culpados pela intenção de pecar, declaro e garanto desde já que nenhuma utilidade tem para nós uma mesa só com água, legumes e sem sangue, porque a manifestação exterior não concorda com a disposição interior. A lei do jejum veio para a pureza da alma. Se a manchamos com maus projetos premeditados e outras ações, de que nos serve beber só água? Para quê tantos sacrifícios? Quem se aproveita do Jejum corporal, se não purifica a mente? Nenhuma vantagem há se a quadriga for de prata resistente e bem ordenada, mas for louco o seu condutor. Que adianta uma nave bem construída, se se embriaga o piloto? O jejum é fundamento da virtude. O fundamento da casa e a quilha do navio serão inúteis e prejudiciais, mesmo postos com muita firmeza, se não forem muito capazes aqueles que depois irão construir. Da mesma forma não há nenhuma vantagem na abstinência se uma outra justificação dela não brotar como consequência. O temor de Deus ensine a língua a proferir aquilo que convém, a não dizer coisas vãs, a conhecer o tempo favorável e não só a medida, mas a palavra necessária e a resposta sensata. Não falar às tontas, não caiam as palavras como granizos violentos sobre os passantes. Pois para isto bem se chama freio aquela débil membrana que liga a mandíbula à língua para não falar sem ordem nem oportunidade. Bendiz, não amaldiçoes. Salmodia, não blasfemes. Felicita, não critiques. Que as mãos precipitadas sejam retidas, como que com cadeias, pela lembrança de Deus. Jejuamos também porque nosso Cordeiro foi vilipendiado com insultos o bofetadas, antes dos cravos. Assim devemos jejuar, nós, os discípulos de Cristo». 

S. Gregório de Nissa (c. 335-395)
Seleção e tradução: Fr. Isidro Lamelas, OFM, 
professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa



Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 22.2.13 | Sem comentários
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