— Declaração do Papa —

Caríssimos Irmãos,
convoquei-vos para este Consistório não só por causa das três canonizações, mas também para vos comunicar uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado. Por isso, bem consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de fevereiro de 2013, às 20,00 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice.

Vaticano, 10 de fevereiro de 2013



— Joseph Ratzinger —
Que aspeto será o da Igreja no ano 2000?, «Fé e Futuro», Principia, 2008

«O futuro da Igreja, ainda hoje, não pode apoiar-se senão na força daqueles que vivem com raízes profundas e que vivem a partir da pura plenitude da sua fé. [...] 
Da crise de hoje, também desta vez nascerá amanhã uma Igreja que terá perdido muito. Tornar-se-á mais pequena, terá em larga medida de recomeçar tudo de novo. Essa Igreja não vai poder encher muitos dos edifícios que construiu quando a conjuntura era favorável. Com a perda do número de seguidores, perderá também muitos dos seus privilégios na sociedade. Terá de se apresentar de modo muito mais forte do que até aqui, como uma comunidade de voluntariado, a que só se pode aceder por decisão. Enquanto pequena sociedade, vai exigir de modo muito mais marcante a iniciativa dos seus membros. Certamente que essa Igreja vai conhecer ainda novas formas de ministério e ordenará sacerdotes cristãos já com provas dadas, mesmo que exerçam uma profissão; em muitas das comunidades mais pequenas, ou em grupos sociais com afinidades, a cura das almas será exercida normalmente desse modo. Aí, será indispensá­vel a figura principal do padre, exercendo como exerceu até agora. Mas, com todas essas mudanças que se pode presumir, a Igreja encontrará aquilo que lhe é essencial, de novo e com toda a determinação, no que foi sempre o seu centro: a fé no Deus uno e trino, em Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem, a assistência do Espírito que perdurará até ao fim. Essa Igreja reconhecerá de novo na fé e na pregação o centro que é verdadeiramente o seu e voltará a viver os sacramentos como serviço de Deus, e não como problema de organização litúrgica.
Será uma Igreja interiorizada, que não reclamará o seu mandato político e não cortejará nem à esquerda, nem à direita. Não terá uma vida fácil. Porque este processo de cristalização e clarificação custar-lhe-á alguns bons colaboradores. Torná-la-á pobre e fará dela uma Igreja dos pequeninos. O processo será tanto mais difícil por a Igreja ter de eliminar tanto a tacanhez sectária como a bravata daqueles que só querem fazer a sua vontade. É de prever que tudo isto precise de tempo. O processo será longo e penoso [...]. Mas, depois da provação dessas divisões, uma força pujante brotará de uma Igreja interiorizada e simplificada. Porque os homens de um mundo totalmente planificado se sentirão indizivelmente solitários. Quando Deus tiver desaparecido inteiramente, aí é que experimentarão a sua total pobreza. E descobrirão então a pequena comunida­de de crentes como qualquer coisa de inteiramente novo. Como uma esperança que lhes diz respeito, como uma resposta por que secretamente sempre tinham esperado. Por isso, parece-me certo que se preparam tempos muito difíceis para a Igreja. A autêntica crise mal começou. Deve-se contar com grandes abalos. Mas estou também seguro de que, por fim, permanecerá não a igreja do culto político, que já naufragou com Gobel, mas sim a Igreja da fé. Ela não será com certeza a força dominante da sociedade, como foi recentemente. Mas florescerá de novo e tornar-se-á para os homens a pátria que lhes dará vida e esperança para lá da morte».

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 12.2.13 | Sem comentários
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