— O que Deus exige de nós? — 


Miqueias foi um dos doze profetas menores do Antigo Testamento que profetizou em Judá aproximadamente entre 737 e 690 aC . Ele veio de Moréshet, a sudoeste de Jerusalém, e profetizou durante os reinados de Iotam, Acaz e Ezequias em Judá (Miquéias 1,1). Viveu nas mesmas condições políticas, econômicas, morais e religiosas que seu contemporâneo Isaías e com ele testemunhou a destruição da Samaria e a invasão do Reino do Sul pelo rei da Assíria no ano 701 aC . Sua tristeza ao chorar sobre a situação trágica de seu povo marca o estilo de seu livro e sua ira se volta contra os líderes e sacerdotes que haviam traído o povo.

O livro de Miqueias pertence à tradição literária da Profecia. No coração de sua mensagem está o oráculo de julgamento. O livro se desenvolve em três secções, mostrando uma caminhada que começa com o julgamento em geral (capítulos 1-3), passa para a proclamação da salvação (capítulos 4-5) e vai até a palavra de julgamento e a celebração da salvação (capítulos 6-7). Na primeira parte, Miqueias critica duramente os que exercem a autoridade, tanto política como religiosa, porque abusam de seu poder e roubam o que é dos pobres: eles “arrancam a pele do meu povo” (3,2) e “proferem sentenças por gorjeta” (3,11). Na segunda parte do livro, Miqueias exorta o povo a caminhar em peregrinação para “a montanha da casa do Senhor... e Ele nos mostrará os seus caminhos e andaremos por suas veredas” (4,2). O julgamento de Deus é revelado na terceira parte como algo acompanhado por um chamado a aguardar em esperança a salvação, com fé em Deus que “tira o pecado e passa por cima das rebeldias” (7,18). Essa esperança se concentra no Messias, que será a “paz” (5,4) e que virá de Belém (5,1) trazendo salvação “até os confins da terra” (5,3). Miqueias chama todas as nações da terra para caminhar nessa peregrinação, partilhando a justiça e a paz que trará a sua salvação.

O forte apelo à justiça e à paz de Miqueias está concentrado nos capítulos 6,1 a 7,7, e o tema deste ano da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos faz parte desse conjunto. Ele coloca a justiça e a paz dentro da história do relacionamento entre Deus e a humanidade mas insiste que essa história necessita e exige uma forte referência ética. Como outros profetas que viveram no período da monarquia em Israel, Miqueias relembra a todos em seu povo que Deus os salvou da escravidão no Egito e através da aliança chamou-os a viver em uma sociedade construída sobre dignidade, igualdade e justiça. Assim, a verdadeira fé em Deus não pode ser separada da santidade pessoal e da busca da justiça social. Mais do que apenas adoração, sacrifícios e queima de oferendas (6,7), a salvação que vem de Deus diante da escravidão e da humilhação diária traz a exigência de “respeitar o direito, amar a fidelidade e caminhar com Deus” (6,8).

A situação dos dalits na Índia é, de muitas maneiras, pode ser comparada à situação que o povo de Deus enfrentava no tempo de Miqueias. Eles também enfrentam opressão e injustiça feitas por aqueles que desejam negar-lhes seus direitos e sua dignidade. Miqueias comparou a ganância dos que exploravam os pobres com a atitude dos que “comem a carne do meu povo, raspam-lhe a pele, quebram-lhe os ossos” (3,3). A rejeição que Miqueias manifesta diante de rituais e sacrifícios que eram empobrecidos por uma falta de consideração com a justiça expressa as expectativas de Deus de que a justiça esteja obrigatoriamente no coração de nossa religião e nossos rituais. Sua mensagem é profética num contexto em que o preconceito contra os dalits é legitimado através da religião e de noções rituais de pureza e impureza. A fé ganha ou perde seu sentido na medida de sua relação com a justiça. Na situação atual dos dalits, a insistência de Miqueias a respeito do aspecto moral de nossa fé exige que nos perguntemos o que é que Deus de fato quer de nós. Serão meros sacrifícios ou a decisão de caminhar com Deus na justiça e na paz? > > >


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.1.13 | Sem comentários
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