— Nihil Obstat - blog de Martín Gelabert Ballester, OP —

Com frequência, no início das celebrações litúrgicas, o presidente exorta os fiéis a porem-se na presença de Deus. O que é que isto pode significar? Se pensarmos bem parece um convite de certa forma estranho, uma vez que nós, crentes, sabemos que, dado que Deus está em toda a parte, estamos sempre na sua presença. Pois bem, há duas maneiras de estar na presença de alguém: uma maneira inconsciente e outra consciente. Exortar alguém a pôr-se na presença de Deus equivaleria a convidá-lo a tomar consciência de uma presença que já acontece nesse momento. Contudo, trata-se de uma presença estranha. Porque não é uma presença igual à que acontece quando estamos perante outra pessoa, nem sequer é uma presença como a que se dá diante de alguém distante ou invisível. Deus é transcendente; e a sua presença não pode de modo algum ser comparada com uma presença humana. Não é a presença de alguém muito importante, ou muito invisível, ou muito distante. É outra coisa. Uma presença omniabrangente, embora invisível e silenciosa aos olhos da carne.
Pôr-se na presença de Deus supõe uma determinada atitude. Mais ainda, supõe uma forma de viver: a daquele que deixa de olhar para si, de se considerar o centro de toda a realidade, para assim estar consciente de que tudo o que recebeu, que tudo é graça, que nada, nem sequer a vida, lhe pertence, porque a vida é um dom. Não é dizer «aqui estou eu», mas «aqui me tens». É tomar consciência de que há uma Presença que desde sempre nos habita, nos interpela e requer a nossa adesão. É deixar de se considerar um sujeito possessivo, para ser sujeito convocado, vulnerável, e à inteira disposição da Presença misteriosa que nos chama, nos envolve, nos sustém.
Pôr-se na presença de Deus é estar consciente de que nós não somos deuses, mas seres limitados; até mais do que isso: egoístas, pecadores. E estar disposto, pelo menos disposto, a renunciar ao pecado. Mas atenção: apenas com a consciência do pecado e da miséria poderíamos afundar-nos. Por isso, ao sentimento da pequenez é preciso juntar o da grandeza. A vida é um presente, sim, mas é um presente que nos é dado por um Pai amoroso, que nos sustém, torna-nos seus filhos e quer a nossa felicidade. A sua presença misteriosa não é opressiva, nem acusadora, nem paralisadora, mas libertadora e consoladora. É a presença do amor, nunca manipulável, mas sempre atento. À luz de Deus descobrimos não só a miséria da nossa condição, mas a grandeza do nosso destino.

© Martín Gelabert Ballester, OP
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013

— a utilização ou publicação deste texto precisa da prévia autorização do autor —

— outros artigos do mesmo autor —


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 29.1.13 | Sem comentários
0 comentários:
Enviar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
  • Recentes
  • Arquivo
  • Comentários