— Nihil Obstat - blog de Martín Gelabert Ballester, OP —

Há pessoas que já me disseram: «não estou de acordo com o que você afirma sobre tal tema». Estar em desacordo em temas teológicos é legítimo e enriquecedor. Pois bem, para estar em desacordo é preciso compreender o que diz um autor e apresentar as razões do desacordo. Esta última parte não é assim tão simples como manifestar o desacordo. Para apoiar o seu desacordo há pessoas que apelam «ao que diz o Magistério» e, em certas ocasiões, o que diz o Magistério reduz-se ao que diz o Catecismo. Não entro agora nos diferentes graus de Magistério, mas mesmo assim digo que, embora a teologia tenha uma referência inevitável ao Magistério, a sua missão não é repetir o Magistério. As explicações teológicas procuram tornar mais compreensível a fé em função de determinadas situações culturais, vitais e históricas.
Pode acontecer, costuma acontecer, e quase me atrevo a dizer, tem de acontecer, que uma explicação teológica não repita o que diz o Catecismo. As repetições, neste caso, estão a mais, porque para isso já temos o texto do Catecismo. Não repetir o que diz o Catecismo não significa estar contra. A repetição, inclusive, pode ser em determinadas ocasiões a maior das infidelidades. Isso é claro quando as palavras mudam de sentido ou se tomam de forma descontextualizada. Quando dizemos, por exemplo, que em Deus há três pessoas, estamos a dizer algo fundamental sobre o Deus cristão. Sempre que se entenda bem. Porque se por pessoa se entende um centro de consciência, de personalidade, de liberdade, de autonomia (que, por certo, é o que entende muita gente), com este conceito de pessoa estamos a oferecer uma má compreensão do Deus cristão. Por isso, a afirmação dogmática sobre a tripersonalidade divina é necessário que seja explicada pela teologia, tornando claro que, tanto em Deus como nos humanos, a pessoa define-se pela sua relacionalidade constitutiva. A explicação pode ser mais de acordo com a fé que a simples repetição mal entendida.
Quando me dizem: «não estou de acordo com a sua explicação teológica», costumo replicar: perfeito, tem você todo o direito e, em certas ocasiões, o dever de não estar de acordo. Mas se quero que nos entendamos e nos expliquemos a propósito do seu pensamento e do meu, conviria que me explique você o que é exatamente o que eu digo, e depois as razões pelas quais você não está de acordo com o que eu digo. Uma vez fiz esta prova e terminei dizendo ao meu interlocutor: eu não me reconheço nisso que você me atribui. 

© Martín Gelabert Ballester, OP 
© tradução e adaptação de Laboratório da fé, 2013
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Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.1.13 | Sem comentários
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