— A Pastoral da Saúde no laboratório da fé —

Há uns anos atrás, uma grande amiga minha tinha o pai internado, com uma trombose cardíaca súbita. Ela é uma católica romana séria e esforçada (penso que todos os cristãos mais não podem ser que esforçados). Ela não mora em Braga. Então telefonava-me e eu rezava o terço com ela. Eu não sei as estações, mas ela sabe, e depois eu respondia nas orações, exceto na Salve Rainha, que é uma oração que acho muito bonita, mas que não consigo decorar (verdade seja dita, que acho que nunca a ouvi ser dita na minha infância). Rezamos muitos terços assim, à noite. O pai acabou por falecer, e pouco depois a mãe.
Quando foi da mãe, eu estava presente, a senhora a esvair-se num cancro após a Páscoa. Quando as pessoas perceberam que ela estava a partir (estava sedada), começaram a desatinar; eu tinha um terço de plástico na mão, que tinha levado por causa da filha, pois tinha medo que no meio da confusão ela se tivesse esquecido do terço, eu sabia que era importante para ela estar junto à mãe com o terço.
Vai daí toda a gente a chorar, a perder a calma e eu a saber que a moribunda estaria a ouvir. Encostei o seu rosto ao meu, e comecei, alto mas calmamente, a perguntar às pessoas onde estava a fé delas. Perguntei se Jesus, o nosso Senhor, estava morto, ou vivo. E as pessoas começaram a perceber. Eu lembrei-lhes que era época de dar glória a Deus pela vinda de Jesus ressuscitado. As pessoas começaram a acalmar e ela começou a partir, sem energia, mas serena. E de repente, a filha, de joelhos, com o meu terço na mão começou serenamente a rezar em voz alta o terço, e os presentes respondiam. E a sua mãe morreu na mais perfeita paz, conosco a rezar o terço de plástico branco, que nunca me foi devolvido (nem eu o pedi, evidentemente).

Considero (como já o afirmei, em outros contextos) que ser cristão exige uma atitude interior mista de estoicismo e fé firme na construção do reino de Deus. Jesus nunca nos disse que ia ser fácil; não foi fácil para Ele, para os apóstolos, por que seria para nós? E porque não é fácil? perguntam muitos pseudo-cristãos...porque estamos no mundo mas não somos dele; se o fossemos, seria facílimo.
Sempre considerei, porém, que ser cristão é uma dádiva enorme no momento de enfrentar a morte, pelo menos a dos outros (dado que a minha ainda não a vivi), a partir da minha própria experiência pessoal. O sofrimento está lá todo, mas está também a certeza da Páscoa, da ressurreição de quem parte. Rezar o terço com a minha amiga foi uma forma de ela reforçar essa certeza, e de sentir que alguém que ela ama, tem também essa certeza. Pedimos que se fizesse a vontade de Deus e estamos ambas certas que assim foi, pois rezamos e sabemos que muitos mais (vivos e mortos) estavam em comunhão conosco...a comunidade de cristãos que comungam do Amor do Pai.

Aquando a morte da mãe, o que me surpreendeu foi a incapacidade das pessoas (todas auto-consideradas cristãs) acreditarem que aquela pessoa que tanto amá(va)mos ia para o Pai, e que não nos tínhamos que preocupar, e que era hora de darmos graças ao Pai por ela ter estado na nossa vida (era uma pessoa extraordinária em dádiva, em sabedoria, em prudência). Claro que o nosso sofrimento tinha uma razão de ser, porque íamos ficar sem ela, mas a nossa fé diz-nos que é temporário.
O exemplo da sua filha, de joelhos, lágrimas escorrendo pela face, mas rezando pausadamente para que a sua mãe partisse em paz, foi um enorme sinal de fé, confiança no Pai, mas também de amor pela sua mãe. O seu sofrimento era coisa pouca face à necessidade de a entregar em paz nos braços de Deus.

Clara Costa Oliveira
 
Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 21.12.12 | Sem comentários
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