— texto semanal publicado no «Diário do Minho» —

«Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso» — assim começa o «Símbolo Niceno-Constantinopolitano». Também o início da primeira pergunta que — na fórmula batismal — se faz aos catecúmenos (adultos que se preparavam para celebrar o Batismo) ou aos pais e padrinhos no batismo de uma criança é: «Credes em Deus Pai [...]? Mas como é que sabemos que Deus é Pai? [Para ajudar a compreender melhor, ler: Mateus 6, 5-15; Catecismo da Igreja Católica, números 232 a 240 e 268 a 278] 

«Pai nosso que estás no Céu» — é a primeira expressão da oração que Jesus ensina aos discípulos. «Não é propriamente novo o pedido que os discípulos fazem. A novidade, a bem dizer, está do lado de Jesus. ‘Rezai, pois, assim: Pai nosso’» (José Tolentino Mendonça, «Pai-nosso que estais na Terra», Paulinas, Prior Velho 2011, 23). 

Esta novidade sobre Deus revelada por Jesus aparece nos (quatro) evangelhos, que usam 170 vezes a palavra «Pai» para designar ou invocar Deus. 

Pai. Esta bela expressão usada por Jesus para designar ou invocar Deus pode, contudo, provocar equívocos. O principal é a comparação com a paternidade humana, com o nosso progenitor masculino. Em consequência, surgem antropomorfismos (imagens humanas de Deus) que deturpam a realidade divina. E dão origem a falsas imagens de Deus. Ninguém pode negar que a palavra «pai» contém uma carga emocional, positiva ou negativa, conforme a experiência concreta de cada um. Por isso, o uso do termo «Pai» em relação a Deus não pode ser senão analógico. De facto, não existe nenhuma palavra humana capaz de abarcar a totalidade do Mistério de Deus. Todas as expressões, mesmo que tenham sido pronunciadas por Jesus Cristo, só podem ser uma ajuda (e nunca um entrave) para nos aproximar do Mistério divino. Por outro lado, a utilização do termo «Pai» para designar a primeira pessoa de Deus pode levar-nos a pensar, consciente ou inconscientemente, que se trata de uma figura masculino. Ora, isto não pode corresponder à verdade. Deus não é homem nem mulher. O que na verdade Jesus Cristo nos ensina é que Deus é a origem e a fonte da vida. 
Chamar a Deus «Pai» é um convite ao silêncio contemplativo e ao amor. É um convite a entrar numa relação filial. Até que dentro de nós possam ecoar as palavras: tu és o meu filho muito amado! 


Omnipotente, Todo-poderoso. A versão latina do «Credo» utiliza a expressão «omnipotentem» («omnia» significa «todo»; «potens» significa «poderoso»). Uma tradução literal também possível em português seria «omnipotente». Em vez de traduzir por «Deus Pai todo-poderoso», também poderíamos dizer «Deus Pai omnipotente». Em qualquer dos casos, «para os nossos contemporâneos esta fórmula não é bem aceite. Até pode se objeto de dois tipos de crítica. Por um lado, nós opomo-nos à ideia de um Deus que demonstra uma omnipotência sobre o ser humano; que liberdade permanece ao ser humano se Deus é omnipotente? Por outro lado, verificamos que Deus não é omnipotente porque não consegue eliminar todos os males da terra. Quantas pessoas, na provação do mal e do sofrimento, deixaram de acreditar em Deus porque, dizem, ele não atende as suas preces! ‘Se Deus existisse, não deixaria que existisse todo este mal’. ‘Se Deus fosse todo-poderoso, não teria deixado morrer esta pessoa que eu amava’. Ficamos tocados no coração por esta pergunta radical. Também as crianças a põem. Os adolescentes igualmente. Os que acompanham os doentes e os ouvem ficam impressionados no mais íntimo do coração. E muitos outros a sentem em si profundamente» (Mons. Christophe Dufour, «Cinco pequenas catequeses sobre o Credo», Edições Salesianas, Porto 2012, 16). A omnipotência de Deus não se assemelha aos desejos humanos de poder, de querer subjugar os outros, às vezes, a todo o custo, recorrendo, se necessário, à violência. O poder de Deus manifesta-se na fraqueza — diz São Paulo na Segunda Carta aos Coríntios (12, 9). Quando dizemos que Deus é «todo-poderoso» não estamos a afirmar que se trata de um poder arbitrário e intervencionista, para impedir o mal ou o sofrimento sempre que fosse necessário. Não é essa a identidade de Deus! O teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer, executado pelos nazis, afirmou que «Deus é impotente e débil no mundo e só assim está connosco e nos ajuda». 

A omnipotência de Deus só pode agir «através da mediação da resposta livre daquele que é amado, daquele que diz: ‘Sim, eu creio’. [...] A fé invoca sobre nós o amor. A fé invoca sobre a humanidade a omnipotência do amor de Deus» (Mons. Christophe Dufour, 19).


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 4.12.12 | Sem comentários
0 comentários:
Enviar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
  • Recentes
  • Arquivo
  • Comentários