— exegese de Herculano Alves —

O ambiente de alegria com que hoje celebramos o Natal tem a sua inspiração no Evangelho de Lucas. De facto, este Evangelista foi o que maior importância deu ao nascimento de Jesus para a humanidade, como acontecimento salvador.
Por isso, quando anunciam o nascimento de Jesus aos pastores, os anjos apresentam a notícia como um acontecimento salvador para a humanidade: «Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor» (Lc 2,10-11).
Ora, perante a salvação que vem de Deus, o ser humano não pode senão sentir uma grande alegria. Esta alegria também está presente no Evangelho da Infância segundo S. Mateus, mas de um modo mais discreto que em Lucas. Convém referir que só Mateus e Lucas têm Evangelhos da Infância de Jesus; mas, sobre o seu Natal, cada um teve as suas fontes e teologia, havendo pouco de comum entre eles.

Cenário do nascimento de Jesus (Lucas 1-2) 

Este acontecimento de salvação é cuidadosamente preparado por Lucas, num cenário majestoso e em cenas sucessivas, em que o divino está continuamente presente.
Para melhor compor o cenário, Lucas também apresenta o nascimento do Apresentador de Jesus, isto é, de João Baptista. Sendo assim, a partir de Lc 1,4, temos a preparação do nascimento deste.

Dois nascimentos paralelos 

Neste sentido, Lucas apresenta duas vidas paralelas, segundo um esquema clássico, pelo menos a propósito do nascimento destes dois personagens. O paralelismo aparece ao nível de:
● Dois casais: pais de João e de Jesus.
● Dois anúncios, pelo anjo Gabriel: Lc 1,5-20. 1,26-38.
● O anúncio é semelhante e ouve do receptor uma objecção, para terem uma prova de como será possível terem um filho em circunstâncias impossíveis.
● Os dois filhos são fruto do milagre (um casal estéril e uma virgem), e o anjo explica como vai ser possível.
● Há cânticos e motivos de alegria, antes e depois dos dois nascimentos: os cântico de Maria (Lc 1,46-55) e de Zacarias (1,63-79).

O nascimento de João Baptista 

O nascimento de João é preparado num cenário religioso: seu pai Zacarias é sacerdote e está no exercício das suas funções no templo de Jerusalém. E o divino revela-se, pela primeira vez, no anúncio do nascimento de um filho a Zacarias e a Isabel, um casal estéril. Pelo facto de serem estéreis, é-lhes garantido que vão ter um filho por intervenção especial de Deus.
Perante isso, o leitor pergunta-se: «Quem virá a ser este menino? (Lc 1,66). Quando a Bíblia fala de um nascimento impossível, é sinal de que o personagem vai ter uma missão especial na His-tória da Salvação. Foi o caso de João Baptista e de Jesus.
Em Lucas, o nascimento de João é o anúncio e preparação do de Jesus. E nos capítulos a seguir à infância, o Baptista surge a anunciar o Messias que está para vir. Por isso deve nascer primeiro o Anunciador e só depois o Anunciado. E o cântico de Zacarias define a missão de seu filho como anunciador daquele «que, das alturas nos visita como sol nascente» (Lc 1,78).

Cenas menores do grande acontecimento 

O grande acontecimento do nascimento de Jesus Salvador é preparado por várias cenas menores, dentro do grande cenário dos capítulos 1 e 2:
● o anúncio do nascimento de João a seu pai, Zacarias (Lc 1,5-20;
● o anúncio do nascimento de Jesus a Maria (Lc 1,26-38);
● a visita de Maria a Isabel, ao saber que também ela fora agraciada com um filho (Lc 1,39-45);
● o cântico de Maria, como hino de louvor ao Deus (Lc 1,52);
● o nascimento e circuncisão do Baptista (Lc 1,57-67);
● o cântico de Zacarias, prolongando o temor e o louvor dos que tinham visto o acontecimento (Lc 1,66-79).

O nascimento de Jesus (Lc 2,1-40) 

Depois desta encenação prévia, o leitor está preparado para contemplar a cena fundamental da História do mundo e da humanidade: o nascimento do Salvador. Lucas começa por situá-lo na história do Império Romano, citando o imperador Augusto e o governador Quirino, por ocasião de um recenseamento. Depois, acrescenta uma circunstância de lugar: em Belém, nas palhas de uma manjedoura, um lugar próprio de animais, em oposição à hospedaria, onde habitam as pessoas. Normalmente, os currais eram contíguos às casas. Maria deu à luz no curral dos animais, por não haver lugar na hospedaria, ou por uma questão de pureza ritual depois do parto (que exigia à mulher o afastamento das pessoas)?
O que interessa a Lucas não são tanto as circunstâncias histórias e geográficas, mas as questões teológicas e catequéticas. Por isso introduz o elemento divino: um anjo anuncia a pobres pastores – considerados pecadores – o facto mais transcendente da História (2,9-11).
E a festa começa, com música, no Céu e na Terra: «Juntou-se uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado”.» (Lc 1, 13-14).

Circuncisão e apresentação de Jesus no Templo 

A cena da circuncisão prolonga a do nascimento de Jesus. É então que é dado ao Menino o seu nome: Jesus, que indica (no hebraico yasha’ = salvar) a sua função de Salvador, como tinha o anjo dito aos pastores (Lc 2, 11).
Este nome e função exprimem a acção de Jesus daí em diante, até à sua ascensão ao Céu (Lc 24,51).
Quando Maria apresenta Jesus no Templo, para O consagrar ao Senhor como filho primogénito, Lucas fala de algo essencial do seu Evangelho: a missão profética. Simeão e Ana acolhem Jesus no Templo como Messias, com hinos inspirados pelo Espírito Santo (2, 28-32 e 2, 38).
Mas, antes deles, outros profetas e profetizas o esperavam e profetizam acerca do Messias-profeta. Lucas, sem complexos anti-feministas, refere tantas profetisas como profetas: Zacarias, João Baptista e Simeão; Maria, Isabel e Ana.

Do Natal ao Pentecostes: a Igreja, comunidade de profetas 

De facto, quem haveria de receber o Profeta por excelência, senão os profetas, com capacidade para essa missão? Só eles podem compreender o Profeta.
Mas isso indica também que, se Jesus é o profeta anunciado por Moisés (Dt 18,18-19), também os seus discípulos devem ser uma comunidade de profetas.
Foi o que aconteceu no dia do Pentecostes, segundo o relato de Lucas nos Actos: o Espírito dos profetas desceu, em forma de fogo divino, sobre a primeira comunidade cristã, para dizer esta coisa simples: não se pode ser discípulo do Profeta sem ser profeta. Um cristianismo sem profetismo, sem a palavra dos profetas, perde a sua essência, degenera.
Por isso, o melhor modo de celebrar o Natal do Profeta Jesus é comprometer-se como Ele na evangelização do mundo actual.

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Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 24.12.12 | Sem comentários
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