— exegese de Ariel Valdés —

Ao relatar o nascimento de Jesus, São Mateus conta que José esteve prestes a divorciar-se de sua esposa Maria, quando se apercebeu de que ela estava grávida e de que o filho por ela esperado não era seu.

Uma dúvida cruel

O texto diz assim: «Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava desposada com José; antes de coabitarem, notou-se que tinha concebido pelo poder do Espírito Santo. José, seu esposo, que era um homem justo e não queria difamá-la, resolveu deixá-la secretamente. Andando ele a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: “José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados.” Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: ”Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho; e hão-de chamá-lo Emanuel, que quer dizer: Deus connosco.” Despertando do sono, José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor, e recebeu sua esposa» (Mt 1, 18-24).
Os cristãos sempre se sentiram desconcertados pelo dramático momento que a sagrada família viveu, perguntando-se: José duvidou realmente da honestidade da sua esposa? Pensou que ela lhe tinha sido infiel com outro homem? Quanto tempo viveu torturado em silêncio, sem saber que o menino que ela levava nas entranhas vinha do Espírito Santo, até que um anjo lhe contou a verdade? E por que motivo Maria não lhe disse, se ninguém lho tinha proibido? Porque é que Deus só anunciou a ela a gravidez virginal, e não a José? Para o mortificar? E porque quis José abandoná-la em segredo?

Matrimónio em duas partes

Sem nos pormos a questionar a veracidade deste episódio (que, tal como está contado, pode ser histórico ou não), podemos tentar responder a estas perguntas suscitadas pelo relato de Mateus.
Para isso devemos ter em conta os costumes matrimoniais daquela época. Os judeus costumavam casar cedo: os rapazes aos 18 anos e as raparigas aos 13. Os próprios rabinos afirmavam que “Deus maldiz o jovem que ainda não se casou aos 20 anos.” E por tratar-se de uma idade tão prematura, a eleição do par corria por conta dos pais.
Para justificar esse costume, os israelitas diziam que era o próprio Deus, no céu, quem concretizava as uniões matrimoniais quarenta dias antes do nascimento de cada criança e imediatamente o comunicava aos seus pais. Mas havia alguns casos em que os jovens elegiam as suas futuras noivas.
Concretizada a eleição, realizava-se a primeira fase do casamento, chamada pelos rabinos “quidushín” (consagração). Era uma espécie de compromisso formal, em que a jovem ficava consagrada para sempre ao seu noivo, mas ainda não podiam viver juntos devido à pouca idade da jovem, e ao facto de os esposos quase não se conhecerem.
O período do “quidushin” durava geralmente um ano, e os jovens já eram considerados verdadeiros esposos, de tal modo que, se ela se unisse a outro homem durante esse tempo, tornava-se adúltera; e se morresse, o rapaz era considerado viúvo.
Decorrido o ano do “quidushin”, realizava-se a segunda parte do casamento, chamada “nissuín”, na qual, após uma grande festa de vários dias, a jovem era conduzida em cortejo à casa do seu esposo para começarem a viver juntos.

A noite escura de José

Deve, pois, ter sido entre o ‘quidushin’ e o ‘nissuin’, isto é, entre a primeira e a segunda fase do casamento, que Maria ficou grávida do Espírito Santo. Assim o especifica Mateus: «Maria estava desposada com José. Antes de coabitarem, notou-se que tinha concebido do Espírito Santo» (Mt 1,18-19).
Que sucedeu, então, entre os santos esposos? Não sabemos. Mateus não o diz. Só podemos imaginar o drama que José viveu, atormentado pelas suspeitas de infidelidade da sua esposa, angústia a que Deus não teve a bondade de o poupar. E a dor de Maria, que via o seu esposo sofrer, mas calava porque tinha medo de não ser compreendida.
Este período da vida de José e Maria impressionou tanto o espírito e a imaginação dos cris-tãos, que alguns procuraram ampliar aqueles momentos dramáticos com novos relatos.

O diálogo angustioso

Um desses relatos encontra-se no Evangelho apócrifo intitulado O Proto-Evangelho de S. Tiago, composto por volta do ano 150. Nele conta-se como Maria, encontrando-se de visita a casa da sua parenta Isabel, notara que o seu ventre ia crescendo cada dia. Aflita, empreendeu o caminho de regresso à sua cidade e escondeu-se. Passados uns sete meses da sua gravidez, José voltou de uma longa viagem de trabalho e encontrou Maria grávida.
Chorando amargamente, repreendeu-a: “Porque fizeste isto? Porque manchaste assim a tua alma, tu que foste criada no Templo de Deus, e recebeste o teu alimento das mãos de um anjo?” Mas ela, chorando, respondeu-lhe: “Eu sou pura. Não tive relações com nenhum homem.”
José disse-lhe: “De onde saiu, então, o que está no teu ventre?” E ela respondeu: “Juro-te pela vida do Senhor, meu Deus, que não sei donde me veio isto.”
Mas as coisas complicaram-se ainda mais para o pobre José, porque no dia seguinte um amigo seu, informado acerca do estado de Maria, denunciou-o perante o Sumo-Sacerdote dizendo: “José violou a virgem que devia guardar, e consumou o matrimónio em segredo.”

As águas amargas

Segundo este apócrifo, o Sumo-Sacerdote ordenou que os dois esposos fossem conduzidos ao Templo; e ali, com palavras duras, acusou-os de terem faltado à sua palavra. Mas, como eles chorassem e jurassem por Deus que eram inocentes, resolveu submeter Maria à prova das “águas amargas”.
Que eram as águas amargas? O livro dos Números (5,11-31) mandava que, se algum marido suspeitava da fidelidade da sua esposa e não havia forma de averiguar a verdade, devia levar a mulher ao Templo para submetê-la a uma prova. Ali, na presença de testemunhas, era-lhe soltada a cabeleira (que toda a mulher decente em Israel trazia recolhida para que ninguém a visse), como forma de envergonhá-la em público.
Depois, o Sumo-Sacerdote pegava num copo de água e misturava-a com terra apanhada do chão. Escrevia uma série de maldições e juramentos com tinta numa folha, diluía-a fazendo correr a água do copo sobre o papel, e recolhendo novamente o líquido dava-o a beber à mulher, dizendo-lhe:
“Se foste infiel ao teu marido, se tiveste relações com outro homem e te tornaste impura, que Deus te converta em exemplo de maldição perante o povo, e faça com que te caiam os músculos e te inche o ventre.”
Tratava-se, evidentemente, de uma legislação machista, que terminava sempre dando razão ao marido, pois com semelhante bebida qualquer mulher ficava intoxicada e com o ventre inchado.
Mas, contam os apócrifos, quando Maria bebeu do copo, um inesperado resplendor surgiu no seu rosto e a sua cara se transfigurou de tal modo que as testemunhas que presenciaram o julgamento não podiam olhá-la de frente. Desse modo, todos souberam que ela era inocente.

As razões do justo José

Este longo relato dos apócrifos mostra até que ponto se estimulou a imaginação dos primeiros cristãos face ao paradoxal episódio que punha José a duvidar injustamente da sua esposa virginal.
Mas aqui chegamos ao ponto mais escuro e misterioso de todo o relato. Porque decide José abandonar Maria, deixando-a só e exposta no pior momento da sua vida? Mateus diz: porque ele era “justo”. Mas, que tem que ver a sua justiça com o facto de abandonar a sua mulher?
Há duas teorias que se propõem explicar a justiça de José. Segundo a primeira, José acredita que Maria cometeu adultério. Ora, a Lei de Moisés ordenava que a mulher adúltera devia ser repudiada pelo seu marido (Dt 22,20-21). E, como ele era “justo”, isto é, cumpridor da Lei, decide repudiá-la (abandoná-la) para cumprir a Lei. Segundo esta teoria, “justo” significava cumpridor da Lei.
Mas, esta hipótese choca com um inconveniente. A Lei ordenava ao marido repudiar “publicamente” a mulher infiel. E José decide repudiá-la em segredo. Portanto não estaria a cumprir a Lei de Moisés. Como podemos chamar-lhe “justo”?
Na segunda teoria, José acredita que Maria cometeu adultério. Mas ele sabe que a Lei manda apedrejar as adúlteras até morrerem. Então, como é “justo”, isto é, bondoso, e não quer que ela sofra, abandona-a, sim, mas em segredo, para lhe salvar a vida. Portanto, segundo esta teoria “justo” significava bondoso.
Mas também esta hipótese apresenta dificuldades. Se José quer abandonar em Maria segredo porque é bom, não se deveria chamar-lhe “justo” mas “bondoso”. Porque diz Mateus que ele é “justo”?

A terceira teoria

Nenhuma das duas teorias, pois, explica satisfatoriamente porque razão José quer abandonar Maria. Por isso, actualmente, os biblistas vêm propondo uma terceira que, além de harmonizar melhor com o contexto do relato, tem o mérito de lançar uma nova luz sobre São José.
Segundo essa teoria, José estava a par do mistério de Maria. Desde o princípio soube que o menino que a sua esposa levava no ventre era filho do Espírito Santo. Por isso nunca pensou que ela o teria enganado. Isto deduz-se do modo como Mateus começa o seu relato. Com efeito, diz: «O nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava desposada com José; antes de coabitarem, notou-se que tinha concebido do Espírito Santo» (Mt 1,18).
Ou seja, começa por dar três informações: a) que Maria estava comprometida com José; b) que não viviam juntos; c) que ela ficou grávida do Espírito Santo. E nós normalmente supomos que José só conhecia dois desses dados: o primeiro e o segundo. Mas não o terceiro. E porque não este? Porquê, se Mateus enumera os três juntos, e em seguida apresenta José a analisar este dilema? Segundo Mateus, é lógico que José conhecia as três informações.
Como soube José da gravidez virginal de sua mulher? Mateus não o diz. Mas tão-pouco diz como se informou Maria (Lucas é quem conta que a anunciação foi por meio de um anjo). Portanto, é possível pensar que, para Mateus, ambos souberam da mesma forma.

O aviso era outro

Resta um último problema. Porquê um anjo avisa José, em sonhos, de que o filho esperado por Maria é do Espírito Santo, se ele já o sabia? Na realidade, as palavras do anjo estão mal traduzidas nas Bíblias. De facto, costumam dizer: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus» (Mt 1,20). Mas, como afirmam muitos biblistas, as partículas gregas “gar” e “de” que aparecem nesta frase não devem ser traduzidas apenas com um “porque”, como está nas Bíblias, mas com um “porque, embora”. Desse modo, a mensagem do anjo muda totalmente, e diz assim: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa; porque, embora o que ela conce-beu seja obra do Espírito Santo, ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus» (Mt 1,20).
Portanto, aquilo de que o anjo informa José não é sobre a origem divina do menino (coisa que ele já sabia), mas que ele ficar com Maria para dar o nome ao menino (coisa que não sabia).

Um plano para os dois

Agora sim, com esta nova perspectiva, tratemos de entender o relato de Mateus.
José e Maria, dois jovens israelitas de 18 e 13 anos respectivamente, estavam comprometidos.
Tinham concretizado a primeira fase do matrimónio, o “quidushin”, e esperavam poder ir brevemente viver juntos uma vez decorrido o prazo estipulado. Mas, nesta fase de espera, Maria foi escolhida por Deus para ser a madre de seu divino Filho. Informado disso, José viu-se perante um sério problema: ele tinha elegido Maria para si, para que ela fosse sua esposa, a mãe de seus filhos, sua companheira. Mas agora dá-se conta de que Deus também se tinha fixado nela, e também Ele a escolhido para mãe de seu Filho.
Como competir com Deus pelo amor de uma jovem? Podia ter a Deus como contendor? Não. Nem podia apropriar-se de um filho que não era seu, mas que vinha do céu. Seria uma injustiça.
E aqui, então, se esclarece a decisão de José. Como ele era justo, não querendo apoderar-se de um filho que pertencia a Deus, r vendo além disso que Deus tinha escolhido a mesma mulher que ele para iniciar o plano de salvação, resolve deixar a sua esposa livre do compromisso que tinha contraído, r divorciar-se em segredo.
E assim tinha decidido, quando em sonhos se lhe apresenta um anjo e lhe diz que não tenha medo (isto é, escrúpulos) em tomar a Maria como esposa (ou seja, celebrar o “nissuin”). Porque embora o filho que ela espera venha de Deus, ele lhe porá o nome de Jesus quando nascer.
Por outras palavras, Deus pede a José que fique junto de Maria. Porque, apesar dela ter sido eleita para Deus, ele também foi eleito – também faz parte do plano de salvação. E qual é a sua missão em tudo isto? Deverá pôr o nome ao menino, isto é, considerá-lo como seu, assumi-lo como próprio.
Porque, sendo ele descendente da família do rei David, se o adoptasse como seu filho podia transformar Jesus num “descendente” de David, num “filho de David”. E introduzindo Jesus na genealogia de David, cumpriam-se as profecias anunciadas sobre Ele.

Recuperar José

Sempre tivemos uma imagem triste e descolorida de São José. Imaginamo-lo como um pobre homem (quando não um idoso), manso e sofredor, que mês após mês teve que ver crescer o ventre da sua amada, enquanto por dentro por dentro morria de dor em silêncio. Desorientado e quase ridículo, lutando entre a confiança e a dúvida, entre o amor e os ciúmes. Como era incapaz de compreender o mistério da encarnação, não lho diziam. Mas este não é o São José do Evangelho. José nunca teve dúvidas acerca da sua Maria. Soube tudo desde o princípio, porque tinha a mesma maturidade que a sua esposa. A sua única dúvida era sobre se Deus o queria ou não ao lado da sua mulher. E Deus fez-lhe saber que sim.
Hoje os cristãos entronizamos muito a Maria, mas não tanto a José. Na Liturgia temos muitíssimas festas da Virgem Maria, mas só duas de São José: 19 de Março e 1 de Maio. Os próprios estudos de Mariologia dão a impressão de que ela não teria sido casada, que se tivesse santificado fora do contexto matrimonial e familiar. Até as nossas devoções, imagens e pinturas se centram quase exclusivamente em Maria, e prescindem de José. Separámos o que Deus uniu!
Mas, Maria e José amaram a Deus em conjunto. Santificaram-se juntos. Um com o outro. Um graças ao outro. Estiveram juntos desde o princípio. Por isso, hoje, quando tantas famílias atravessam momentos de crise, quando muitos casamentos metem água por todos os lados, e a Igreja não dispõe de modelos conjugais, convém lembrar José, a quem Deus quis santificar em família unido para sempre a Maria.

Tradução de Lopes Morgado
www.capuchinhos.org

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 18.12.12 | Sem comentários
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