— texto semanal publicado no «Diário do Minho» —

Jesus Cristo, Filho de Deus, vem ao mundo, habita a nossa história, para nos dar a conhecer o próprio Deus. Jesus Cristo revela-nos um Deus que ama a sua Criação, que ama os seres criados, de modo particular o ser humano. Apesar das (nossas) infidelidades, Deus nunca volta as costas, mas sempre se dispõe a amar. O Pai, que ama infinitamente todos os seus filhos, envia ao mundo o Seu Filho, Jesus Cristo, «por nós homens» — como afirmamos no «Credo». [Para ajudar a compreender melhor, ler: Primeira Carta de João 4, 7-11; Catecismo da Igreja Católica, números 385 a 421]

«O amor de Deus manifestou-se desta forma no meio de nós: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que, por Ele, tenhamos a vida» — esta afirmação da Primeira Carta de João destaca (de novo) o tema do amor de Deus pelos seres humanos. É, na verdade, um tema muito presente nos escritos joaninos. O autor da Carta reforça toda a sua convicção a partir de uma afirmação central: «Deus é amor». A mais bela (e até talvez a única) definição de Deus que encontramos em toda a Escritura. Esta revelação de Deus não é uma mera afirmação especulativa. É uma experiência histórica concreta. O amor de Deus não é uma realidade para explicar. «Deus é amor» através do seu agir, que se descobre de modo evidente na vida do Seu Filho, Jesus Cristo. Ele vem ao mundo, «por nós homens», para nos dar a conhecer o amor. E para nos chamar a viver nesse mesmo amor.

 
 E por nós, homens. No centro do «Credo» (niceno-constantinopolitano) irrompe uma afirmação da causalidade humana. Até parece «que fazemos mexer qualquer coisa do lado de Deus e do Filho por quem e para quem tudo foi feito» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray, «Para compreender o Credo», ed. Perpétuo Socorro, Porto 1993, 78). Deus não fica nem está indiferente ao ser humano. Jesus Cristo, o Filho Unigénito de Deus, vem habitar a nossa história. «Por nós, homens». Por mim. Por ti. Por todos. «Doravante, escreve François Mauriac, no destino de todo o homem Deus estará à espreita» (Ph. Ferlay, J.-N. Bezançon, J.-M. Onfray,78).

O pecado. A causalidade da vinda de Jesus Cristo ao mundo — «por nós homens» — assume uma dupla dimensão: do lado de Deus e do lado dos seres humanos. Da parte de Deus, como já vimos, revela-nos o seu infinito amor. Da parte dos humanos, confronta-nos com a resposta a esse amor, que pode ser uma não resposta, isto é, a infidelidade, o pecado. A plena realização do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, só pode acontecer no amor. Infelizmente, pode não acontecer assim. O amor não se impõe. É uma escolha livre e pessoal. Pode ser recusado. Esta de recusar o amor concretiza-se no que, em linguagem religiosa, chamamos pecado. O Catecismo da Igreja Católica afirma (número 386): «O pecado está presente na história do homem. Seria vão tentar ignorá-lo ou dar outros nomes a esta obscura realidade. Para tentar compreender o que é o pecado, temos primeiro de reconhecer o laço profundo que une o homem a Deus, porque, fora desta relação, o mal do pecado não é desmascarado na sua verdadeira identidade de recusa e oposição a Deus, embora continue a pesar na vida do homem e na história». O pecado é tudo aquilo que nos impede de acolher o amor de Deus. É tudo aquilo que nega o amor: o egoísmo, o ódio, a violência, a mentira, a injustiça, a opressão, a rejeição, a intolerância, o mal... A recusa do amor desfaz a nossa harmonia interior. A relação com Deus e com os outros «fica transformada num jogo de poder, controlo e desconfiança. [...] Custa-nos acreditar num Deus que seja amor verdadeiro. E as nossas relações com os outros começam a ser dominadas pela desconfiança, pela indiferença e pela agressão» (Rui Alberto, «Eu creio, Nós cremos. Encontros sobre os fundamentos da fé», ed. Salesianas, Porto 2012, 97). Esta possibilidade de se deixar vencer pelo mal faz-nos solidários no pecado. É o que a Igreja chama de «pecado original», relatado na Bíblia de forma poética através da desobediência de Adão e Eva. O autor do livro do Génesis tem uma intenção clara: o ser humano pode deixar de confiar em Deus, pode «esconder-se» de Deus; o homem e a mulher podem usar mal a liberdade que lhe foi dada pelo Criador, recusando-se a viver no amor.

«Apesar de a humanidade ter voltado as costas a Deus, Ele não desistiu de nós. Deus nunca abandonou a humanidade. Deus comprometeu-se ao longo de toda a história em nos dar sinais, pistas, que nos permitissem reencontrar a alegria e a salvação. E esta aposta de Deus realiza-se de forma perfeita quando Jesus vem até nós e dá a sua vida para nos salvar (Rui Alberto, 97).

Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 26.12.12 | Sem comentários
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