— texto semanal publicado no «Diário do Minho» —

A primeira afirmação de fé, no «Símbolo Niceno-Constantinopolitano», é «Creio em um só Deus». Fica bem claro que acreditamos num único Deus. [Para ajudar a compreender melhor, ler: Êxodo 3, 13-15; Catecismo da Igreja Católica, números 198 a 231] 

«Eu sou Aquele que sou» — é a resposta que Deus comunica a Moisés, quando é questionado sobre o seu nome, sobre a sua identidade. «O texto põe esta frase na boca de Deus, mas as definições dadas pelo próprio Deus são tão difíceis de traduzir como de compreender. Em resumo, podemos guardar três interpretações: Eu sou quem sou, isto é, [...] sou demasiado grande para ser contido num nome ou definido por palavras; Eu sou Aquele que é, isto é, sou o único Deus que existe realmente [...]; Eu sou quem será, isto é, vós descobrireis quem Eu sou, vendo as minhas manifestações no meio de vós» (AA. VV., «A fé dos católicos», Gráfica de Coimbra, Coimbra 1991, 187). 


A fé de Abraão. A tradição bíblica indica Abraão como o primeiro a confiar num Deus único. Mas os dados históricos situam a elaboração do livro do Génesis no tempo de Salomão, quando Israel já se encontra constituído como povo e com um território. Um dado é certo: a memória coletiva do povo de Israel acolhe Abraão como «nosso pai na fé». Aliás, este personagem bíblico é aceite pelas três grandes religiões monoteístas (acreditam num Deus único): judaísmo, cristianismo e islamismo. Abraão é o «pai dos crentes», porque tem plena confiança nas promessas de Deus, porque obedece à palavra de Deus, porque conhece Deus presente nos acontecimentos da vida. Abraão, quer nos momentos de felicidade, quer nos momentos de prova, acredita e confia contra toda a esperança.

Creio. «Com a palavra ‘creio [acredito em ti]’, manifestamos um modo pessoal, nosso, de nos pormos diante de uma determinada pessoa: consideramo-la digna de confiança, convencidos de que diz a verdade» (Dionigi Tettamanzi, «Esta é a nossa fé!», Paulinas, Prior Velho 2005, 12). Dizer «creio» é afirmar a nossa confiança, apesar da dúvida ou do risco. Por isso, há uma (grande) diferença entre o crer, o ver e o saber. Como escreveu Jean Guitton, «saber é mais belo do que ver. Mas crer é ainda mais belo do que saber, porque no ato de crer há muito amor. Ver é uma operação feita pela vontade, e até pelo mais alto grau da vontade, que é o amor. Pois bem, há mais na inteligência do que nos sentidos; e há mais no amor do que na inteligência». Dizer «creio» é manifestar a nossa adesão livre e pessoal. Por isso, exige o envolvimento e o empenho da razão. Assim, torna-se útil saber o que dizemos no «Credo» de modo a (re)descobrirmos a sua beleza e significado; e a fazer com que se torne um «sinal distintivo» da identidade cristã. 

Em um só Deus. «Hoje, a coisa mais difícil parece ser precisamente ‘crer em Deus’. De facto, por um lado sentimo-nos remetidos para Deus e para o seu mistério [...]. Mas, por outro, vivemos frequentemente ‘como se Deus não existisse’. [...] Se refletirmos bem, não é tanto Deus em si mesmo que constitui um problema para nós. É, sim, a nossa ideia acerca dele - isto é, a imagem que dele fazemos e que, por vezes, nos parece tão banal e infantil - e, ainda mais radicalmente, a nossa relação pessoal com Ele. Ter fé não significa ter Deus na mão e tê-lo à nossa disposição» (Dionigi Tettamanzi, 30). Quando afirmamos «Creio em um só Deus» não estamos a afirmar que conhecemos tudo sobre Deus. Estamos a manifestar a nossa adesão pessoal ao Deus bíblico plenamente revelado em Jesus Cristo. Acreditar, não significa saber tudo sobre Deus. Tudo o que dissemos será sempre uma imagem imperfeita da perfeição divina. Por isso, mais do que elaborar tentativas para dizer quem é Deus, o crente acolhe, pela fé, a existência de Deus e aprende, como Abraão, a descobrir a presença de Deus nos acontecimentos da vida. A fé permite-nos abrir a nossa vida à presença de Deus. O crente deixa-se visitar por Deus e aceita o convite para mergulhar na profundidade do mistério divino. Ora, como diz Tertuliano: «O ser supremo tem necessariamente de ser único, isto é, sem igual. [...] Se Deus não é único, não é Deus». O Catecismo da Igreja Católica apresenta as consequências da fé em Deus único: reconhecer a grandeza e a majestade de Deus; viver em ação de graças; reconhecer a dignidade de todos os seres humanos; fazer bom uso da Criação; ter confiança em Deus, em todas as circunstâncias. E conclui com a oração de Santa Teresa de Jesus: 
«Nada te perturbe, nada te atemorize. Tudo passa, Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta».


Postado por Marcelino Paulo Ferreira | 20.11.12 | Sem comentários
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